1 de maio de 2017

Uma carta para meu pai

E lá se foram quatro anos da última vez que te escrevi. Eu queria te contar novidades sobre mim. Queria ser a protagonista da minha própria carta. Meus dedos coçaram quando eu mudei de emprego (mas não deu muito certo), quando terminamos a reforma da casa (mas foi uma vitória da mãe, não minha), quando a Karine ficou grávida, quando o Palmeiras foi campeão ano passado... enfim, eram sempre os outros, por isso demorei. Mas estou aqui agora.
A minha grande insegurança e maior medo sempre foi a questão da minha profissão. Não saber o que fazer da vida enquanto todo mundo (aparentemente) sabe o que está fazendo sempre foi difícil pra mim. Por isso eu não fazia planos para o amanhã porque não simplesmente não me importava. Não é que eu tenha certeza do que eu esteja fazendo agora. Não estou escrevendo essa carta da minha sala de gerência de um hotel de luxo, nem de porque comprei um carro ou algo do tipo... Todas as mudanças foram internas. É como se eu fosse um grande pedaço de terra.. 2012 e 2014 foram anos devastadores, de certa forma. Pra começar de novo, e começar bem, tive que arrancar da terra tudo que estava plantado. Rever os conceitos, conhecer o chão onde estava pisando novamente. Trabalhei essa terra com muita psicologia, tomei remédios. E depois o que plantar ali? Muitas possibilidades. Não sei quando tempo eu fiquei olhando e pensando E AGORA O QUE VOU PLANTAR AQUI. Eu me sentia muito sozinha. Naquele desespero e angústia, tentei germinar uma rota de fuga com algumas sementes velhas que ainda estavam no meu bolso. Só pra garantir, vai que... Não nasceu nada. 
Comecei a escrever. Escrevia quase todos os dias. A escrita me ajudou bastante. Ocupava minhas tardes, retomei um livro que tinha começado. Tava tudo ótimo. Até que perdi tudo. De novo. Naquele dia deu tudo errado. A mãe chegou estressada do trabalho, me encontrou de pijamas e com cara de choro. A gente brigou. Peguei um ônibus pra sei lá onde, comprei uma garrafa de vinho e fui pro cinema. Só tinha certeza que eu não poderia parar de escrever porque, até então, era a única coisa que eu sabia fazer. Continuei com o blog, mandei e-mail para um monte de sites da internet, corrigi inúmeros trabalhos (dava pouco dinheiro, mas era o que tinha), ia para biblioteca de Pirituba de tarde pra não ficar o dia todo fechada dentro de casa. 
Eu me sentia ótima emocionalmente mas não me sentia útil. Até cogitei plantar uma semente velha novamente (guardei uma no meu bolso), mas decidi jogar fora de vez. A mãe disse: por que você não vai estudar fotografia? Ideia absurda. Não sei mexer em photoshop, não sabia lidar com flash, custa caro
Mas, por que não? Eu fiquei enrolando a mãe durante um mês. Estava animada com a possibilidade, mas aterrorizada com os custos. Não queria abusar, detesto a ideia de ser um peso, eu queria fazer as coisas de uma outra forma. Mas dei essa chance e cá estou eu, maravilhada com as possibilidades. Voltar a estudar é muito bom. O primeiro dia de aula eu só conseguia pensar "COMO EU FIQUEI TANTO TEMPO FORA DE UMA SALA DE AULA?". Estudar uma algo que você gosta dá todo sentido pra vida. E ali, naquela terra enorme, do lado da plantinha da escrita, com as sementes que ganhei da mãe, estou regando a fotografia. Pode vingar, pode não vingar, mas estou cuidando dessa plantação com carinho. Não é sempre que receberei sementes mágicas da mãe. Ela tem a terra dela pra cuidar também. Tô me sentindo útil e aprendendo bastante. 
E não poderia deixar de falar de outra pessoa. De duas, aliás. Da Rafaela e do Guilherme. Karine ficou grávida, foi um susto (MEUDEUSDOCEU COMO VAMOS FAZER AGORA?) mas dois minutos depois a mãe já estava comprando roupinhas de criança na Renner. 


Rafaela com 11 meses. Guilherme com 28 anos.

Quando soubemos que era uma menina que  Karine estava carregando na barriga, eu chorei tanto. Era felicidade mas era muita tristeza porque você não tava aqui pra ver essa semente do Guilherme. Eu chorei igual no dia que você morreu. Eu achei que fosse verter tudo em água aqui em casa. Mariana veio aqui, fez um macarrão, a gente jantou e foi bom. Não precisou falar nada. Tem pessoas nessa vida que a gente conversa sem precisar conversar. 



 


A Rafaela chegou no mesmo mês em que você partiu. Você foi embora dia primeiro de maio e a Rafa chegou no último dia desse mês. A vida mudou bastante depois da chegada da Rafucha. A mãe se derrete toda pela neta, não sente dor nos joelhos nem nas costas com a Rafa está por perto. 




E te falar que a Rafaela é uma menina inteligente, graciosa, risonha e feliz. Guilherme e Karine estão cuidando bem dela. Eu nunca achei que pudesse sentir esse amor por outra pessoa da minha família. Ela é linda, saudável e geminiana igual a tia. Morro de orgulho disso. Há de ser uma criança feliz (aliás, já é) como eu e Guilherme fomos quando éramos pequenos. 



A vida tá seguindo. Tem dias que me dói de não ter você aqui vendo a Rafa crescer, vendo os meus brotinhos ficarem verdes, mas eu carrego sempre a sua memória e pode ter certeza que enquanto eu estiver por aqui, a Rafaela vai saber do seu outro avô Roque Teixeira Neto, que tinha uma risada alta e era doido por amendoins.


Ela conhece você, pai.

Ela carrega seu nome também.

Sinto saudades. Mas aquela saudade boa. Te amo demais. 
Te escrevo de novo contando coisas boas ao meu respeito. Todos mandam beijos, abraços e pistaches. A Rafa te manda um sorrisão. 
Da sua filha,
Camila. 




7 comentários:

Sam disse...

licença aqui rapidão q virou um balde em cima do meu teclado <3

Guilherme Rocha disse...

Segura coração veio....dentro de um vila Madalena chorando igual criança.
Tb me pego pensando que o pai não viu ela... Mas ele está vendo ela todos os dias... Está junto com o anjo dá guarda dela!

Guilherme Rocha disse...

Segura coração veio....dentro de um vila Madalena chorando igual criança.
Tb me pego pensando que o pai não viu ela... Mas ele está vendo ela todos os dias... Está junto com o anjo dá guarda dela!

Ana Carô disse...

Toda vez que você escreve para ou sobre o seu pai penso no orgulho imenso que ele deve sentir por você e no amor tão grande que ele plantou em vocês. Coisa linda, Camies.

Bárbara disse...

<3 vc é maravilhosa Camie!

Odonir Oliveira disse...

Querida Camila, que suas fotos em preto e branco emoldurem suas frases tão coloridas. Gostei muito de umas e de outras. Orgulho-me de sua produção. Seja feliz.
Odonir

Flávia Mathedi disse...

Obrigada por compartilhar isso com a gente <3