31 de março de 2016

You're beautiful as you feel

Sabe quando você escuta uma coisa e não consegue parar de pensar nisso? Estou assim tem pelo menos um mês. Estava assistindo de madrugada meu feed no snapchat, quando uma pessoa muito querida disse que era um lixo. “Eu sou um lixo”. Eu pude sentir na hora o peso daquelas palavras e de que ela estava falando sério, apesar do sorriso.

Nas redes sociais, principalmente no Twitter, estamos acostumados a ler quase todos os dias “queria estar morta”. Aquele desabafo cômico/irônico que beira a banalidade de tantas vezes que lemos durante o dia. Mas esse negócio do LIXO, de ser UM LIXO, foi a mesma coisa que tomar um soco no peito. Eu revi aqueles snaps mais de três vezes. Quis escrever alguma coisa e falar “tá louca, VOCÊ NÃO É UM LIXO”, mas não sabia como dizer e convencer aquela mulher que ela é inteligente sim, bonita, divertida. Não tem nada de lixo!

Quantas vezes eu me senti assim no alto dos meus 20 e poucos anos? Inúmeras vezes. E assim como essa pessoa em questão, sempre usei do alívio cômico pra expressar esse sentimento pesado de sentir-se um zero à esquerda.

O humor causa a impressão de suavizar até as piores coisas. Eu já suavizei muitas situações e sentimentos usando do alivio cômico, principalmente quando estou nervosa. Uma risada quebra o gelo e é melhor rir de uma piada que você fez ao seu respeito do que um terceiro te esculachar, todo mundo rir e você fica lá, se sentindo um lixo. Quando eu fazia uma piada de mim mesma, tinha a falsa impressão que seria aceita. Mas varrer a baixa autoestima debaixo do tapete, fazer das coisas que você está sentindo uma piada e tornar isso um costume, foi uma das piores coisas já fiz. Mesmo quando eu estava falando sério, de verdade, sem fazer a engraçadona, as pessoas não acreditavam em mim. Ter a sua opinião desmerecida, sua voz silenciada e seus sentimentos banalizados porque durante anos da sua vida você fazia piada das suas dores e da sua tristeza, é horrível. E foi assim que parei de usar o alívio cômico para deixar os OUTROS CONFORTÁVEIS quando estava falando sério. Os resultados não foram imediatos, afinal, comecei a refletir sobre esse comportamento depois de anos, mas é bom ser levada a sério. Tem gente que ainda não me entende, que acha que sou burra em assuntos um pouco mais sérios, mas estou batendo o meu pé. Fecho a cara. Agora eu me levo a sério. Não sou uma piada, quero que levem minhas considerações a respeito e que não me tratem feito criança.

Infelizmente não tem pílula mágica pra olhar paro espelho e sentir-se melhor com as coisas que te incomodam há anos. Passei a vida toda sendo desacreditada e desacreditando de mim mesma. Perdi muito tempo, mas agora estou me entendendo cada dia melhor. Não canso de dizer isso aqui. E o primeiro passo fundamental foi parar de me desacreditar, começando pelas piadinhas. Chega de alívio cômico para coisas sérias. Acabou.

Eu gostaria muito que alguém lá no passado, nos meus 20-23 anos, tivesse falado que eu não era um lixo, que era importante, amada, bonita. E teve até gente que falou e tentou alguma coisa, mas simplesmente achava eu NÃO VALIA A PENA. Não acreditava em nada do que meus amigos diziam ou qualquer elogio sobre minhas qualidades. Sempre dei mais atenção para o reforço negativo da sociedade, das revistas femininas, das propagandas exaltando uma beleza que eu não poderia fazer parte, “você é bonita de rosto”. Tornei-me invisível pra mim mesma. Pior escolha. A maturidade, aos poucos, foi tirando esse véu espesso e apagando coisas que eu tinha escrito em pedra aos vinte e poucos anos. Eu me sinto péssima algumas vezes sim, tem dias ruins sim, mas eu sei que não sou um lixo. Ninguém aqui é.

Nada do que eu respondesse aquele snap iria convencer essa amiga que ela está errada a respeito de si mesma. Nada do que eu fale aqui vai fazer alguma diferença se vocês não acreditarem de verdade em seu potencial, em sua beleza e características específicas, em sua individualidade. As coisas não são de uma hora para outra, mas sempre estarei aqui falando que valemos a pena sim. E que um dia ser a diferentona do grupo, tida como desligada ou nerd, gorda desleixada ou magrela, ingênua, feminista demais ou qualquer rótulo que as pessoas tendem a nos colocar, não significará nada. Você sabe quem é, o seu valor e a que veio. E o resto nada mais importa. 



*O título do post de hoje é um trecho dessa música maravilhosa da Carole King. 


Um comentário:

Helen. disse...

Nossaaaaa, puta tapa na cara esse texto, Pq eu super sou dessas de fazer piadinhas comigo mesma, na realidade nunca me atentei Q isso pudesse ser tão prejudicial assim pra mim, vou pensar a respeito. Obrigada pela dica ;*