7 de março de 2016

Odonir Oliveira

Eu tinha dez anos quando meus pais ficaram sem dinheiro para manter eu e meu irmão na escola particular e fomos estudar na prefeitura. O ano era 1997 e as coisas na EMEF Rui Bloem eram bem diferentes com o que estava acostumada. Pra começar, fiquei durante um tempo sem professora de português. Toda vez que chegava mais cedo em casa por causa das constantes aulas vagas, minha mãe ficava preocupada. Não ter aula de português, uma disciplina BÁSICA e FUNDAMENTAL, como ficaria o meu aprendizado? Uma vez minha mãe foi reclamar com a diretora da escola e escutou “Mãe, eu estou preocupada com as alunas de 13 anos que estão grávidas no momento. Desculpa, tenho coisas mais importantes pra me preocupar”.

Na sexta série conseguimos uma professora fixa, mas não me lembro do nome dela. Os boatos nos corredores do Rui Bloem era que o pessoal da minha sala tinha sorte, porque a professora que ensinava a outra metade das classes da sexta série era uma bruxa. O nome da professora era Odonir. Minha melhor amiga na época tinha aula com essa professora temida e reclamava horrores. Minha amiga tinha lição de casa, a professora passava projetos, lia poesia. Eu não estava aprendendo nada disso.

Lembro que a professora Odonir iniciou um projeto de leitura que acabou envolvendo todas as sextas séries. Muitos dos meus colegas de classe estavam achando um absurdo “ela nem era a nossa professora” e depois teve mais um “boicote” porque o livro era “caro demais”. No final todo mundo leu o livro da Isabel Vieira que se chamava “Quem sequestrou Marta Jane?”. Eu lembro que no final os livros saíram a preço de custo e a professora Odonir trouxe a escritora na escola pra conversar com a gente sobre o livro. Numa escola de prefeitura em 1998, sem apoio nenhum, trazer uma escritora no Rui Bloem era um grande feito.

Naquela época foi plantada a sementinha da leitura em mim. Eu já gostava de ler e acabei me interessando mais. Acabei pedindo para a minha mãe comprar outros livros da Isabel Vieira. Li todos os livros disponíveis dessa autora na época e comecei a frequentar a biblioteca da escola. No ano seguinte (se não estou enganada) a professora Odonir acabou pegando todas as turmas de sétima série e eu tive o prazer de ser aluna dela. 

Antes de continuar com essa história, preciso pintar um pequeno cenário para vocês. Quando comecei a estudar no Rui Bloem, era uma escola bem desacreditada. Ninguém usava uniforme, não havia muitos professores, tinha algumas gangues dentro da escola. Aos poucos as coisas foram melhorando para nós alunos (não sei quanto aos professores). Mesmo assim, ainda tinha muita briga, uma série de alunos bem problemáticos. A nossa professora de matemática simplesmente não conseguia dar aula direito. Ela tinha um filho com necessidades especiais e alguns alunos caçoavam por disso. Ninguém respeitava a prof. Lóide. Os meninos, dia sim e dia não, furavam TODOS os pneus do fusquinha amarelo dela. Ela nem podia mais estacionar o carro em frente da escola. A maioria dos professores tinha receio de certos alunos. Vi muita gente mandar o professor calar a boca. E eles se calavam diversas vezes. Uma vez escutei que tinha um cara lá (que por sinal estava na minha sala) que ia armado pra escola, que era chefe de boca. Se isso era verdade ou não, eu não sei. Mas havia um pessoal que botava medo ali.

A professora Odonir sempre foi muito enérgica. Ela fazia nos fazia pensar, refletir, realmente fazia valer aquele nosso tempo na escola. Agora no Rui Bloem tinha até festival de poesia (que eu participei de livre e espontânea vontade). Ela nos fez pesquisar sobre os poetas e escritores de Minas Gerais e São Paulo numa época que não existia Google. Toda semana eu estava na Biblioteca de Pirituba pesquisando sobre algum projeto que envolvia as aulas de português e literatura. Ela nos fez preparar dossiês, recitava poesias, lembro até que organizou um debate entre os alunos na época das eleições para a prefeitura de São Paulo. Cada grupo defendia um candidato e, daquele jeitinho, a professor Odonir nos ensinava argumentação. Na oitava série escrevemos inúmeras dissertações porque tínhamos que estar preparados antecipadamente para o vestibular. Ela não tinha medo de aluno, impunha respeito (levei bronca diversas vezes porque sempre falei mais que a boca) quem fazia bagunça e não respeitava a autoridade dela em classe, era colocado pra fora.

Chegou o dia em que fui pra escola e estávamos de aula vaga de português. Da professora Odonir. Como assim? Ela NUNCA faltava! E se tinha que se ausentar, deixava atividade. Mais tarde circulou a notícia que a professora tinha sido ameaçada de morte por um dos alunos. Não sei se ela ficou ausente uma semana ou quinze dias, pra mim foi uma eternidade. Eu estava chateada e com um pouco de medo. Ameaça de morte é coisa séria.

Então depois de um tempo, a professora voltou pra escola. Voltou pra nossa turma. Lembro que pisou dentro da nossa sala e um engraçadinho cantou baixinho a marcha fúnebre. Mesmo assim, ela não se curvou. Explicou a situação com clareza para classe e disse que iria continuar exercendo a sua profissão e que não tinha medo de bandido disfarçado de aluno. E que não iria nos abandonar e ficaria no Rui Bloem até o final das aulas, contrariando as recomendações da polícia e de sua família.

Quando eu cheguei ao primeiro colegial (agora em escola particular através de uma bolsa de estudos) eu realmente entendi o que a professora fez por todos os seus alunos ali na prefeitura. Entrei no ensino médio com uma imensa bagagem literária e gramatical. Ela nos preparou pra vida do vestibular, aguçou a nossa curiosidade, formou pesquisadores, despertou o interesse pela leitura. Não sei se todos os meus colegas na época aproveitaram tanto quanto eu aproveitei. Mas a oportunidade foi dada. Ela realmente tinha vontade de nos ensinar, de fazer a gente aprender. Professora Odonir se importava de verdade.

Essa semana é a semana do Dia Internacional de Luta das Mulheres. Não é uma data comemorativa, é uma data de luta. Quero começar a semana contanto pra vocês essa história de perseverança da professora Odonir. Toda vez que penso nesses acontecimentos, agora com os olhos da maturidade, eu me emociono. É preciso muita força e resiliência de ser professora, de levantar todos os dias e saber que pode não voltar pra casa e mesmo assim ir. Munida de cadernos e livros, enfrentar uma classe com quarenta pré-adolescentes eufóricos e QUERER estar . Resistir. Ensinar. Lutar todos os dias. Mas lutar de verdadeEste deve ser apenas uma nota de rodapé na história desta mulher maravilhosa, que levou a sério sua profissão de ensinar e formar pessoas. Com ela não tinha aula vaga, não tinha corpo mole. Desde cedo nos preparando para a vida fora das paredes da escola.

Recentemente o Facebook me trouxe notícias da professora-poetisa. Atualmente ela publica suas poesias em um blog Mãos que Sentem e mantém e organiza o “Clubinho da Leitura de Barbacena” voluntariamente. É um trabalho inspirador e transcendente. Imagino que introduzir o gosto pela leitura de uma forma tão lúdica nessas crianças deva ser uma experiência mágica. Ler é mágico. A Professora Odonir é a melhor Mágica que eu conheço. 

Esse são alguns livros li na época do ginásio.
A maioria eu acabei doando anos atrás para a biblioteca do Rui Bloem. 

6 comentários:

Odonir Oliveira disse...

Camila, Deus a eleve à categoria de anjo, viu.
Hoje, um dia daqueles em que tudo pesa, você me fez levitar. Menina Camila, sempre menina, tomara tenha eu, simples professora com vontade de fazer o melhor que conseguisse, ter assoprado sobre você e seus colegas a vontade de ler, escrever e, sobretudo, ser um SER HUMANO de boa qualidade.
Você me presenteou de uma forma engrandecedora, saiba. Hoje sou melhor do que ontem, graças às suas palavras aqui. Muito obrigada.
Beijo seu rosto, emocionada.

Franciele Agnoletto disse...

Dentre tudo que pensei enquanto lia vou comentar apenas que ler o comentário da profe Odonir me desmontou aqui. Estou feliz por ela ter tido a oportunidade de saber o que fez por você ♡

Franciele Agnoletto disse...

Dentre tudo que pensei enquanto lia vou comentar apenas que ler o comentário da profe Odonir me desmontou aqui. Estou feliz por ela ter tido a oportunidade de saber o que fez por você ♡

Flávia Eloá disse...

Fiquei o texto inteiro pensando: Tomara que ela tenha contato com a professora e também me emocionei com o comentário dela. Tenho lembranças muito boas da professora de português com quem descobri que amava redação.. A prô Bernadete. Mas infelizmente, ela já vive em outro plano. Muita saudade. E feliz por vc ❤️

Heloisa Ramos disse...

Camila, foi com alegria e emoção que li seu belíssimo depoimento dedicado à sua professora Odonir. Querida Odonir, você merece cada palavra de reconhecimento de sua aluna. Recebam meu abraço, Heloisa

raquel a. disse...

Que texto maravilhoso! Que professora incrível e corajosa! Não segui meu ofício de professora de história mas admiro muito a força e perseverança que muitos dos meus amigos tem por continuarem na estrada do ensino. Parabéns à Odonir, que deu o ar de sua graça nesse registro tão bonito! <3