11 de março de 2016

Narciza Adelina da Rocha

O que acontece com uma mulher quando lhe é atribuída a vida toda a característica de FORTE? Adelina é uma mulher FORTE. Adelina é uma mulher GUERREIRA. Adelina vai superar rápido porque ela é MUITO FORTE. Adelina não precisa de ajuda porque ela é FORTE. Não é que não precise de ajuda ou de um abraço amigo. O que aconteceu é que desde pequena teve que decidir tudo sozinha, sem ajuda de pai ou colo de mãe.

Quando Adelina tinha 8 anos teve que sair de casa e do convívio de irmãos e pais para morar na casa da comadre de sua mãe. Nesta casa estranha e sem sorriso amigo, começou a trabalhar como gente grande, apesar de sua idade. Ajudava na mercearia e com os afazeres domésticos. Tinha o que comer e onde dormir, mas em compensação tinha que ouvir essas pessoas falarem absurdos sobre sua família e sobre ela.

“Adelina, se você fosse minha empregada já teria te colocado pra fora porque você não faz nada direito”.

“Você pensa que vai ser alguma coisa na vida? Você vai ser igual a sua mãe, uma lavadeira cheia de filhos”.

“Adelina, você vai passar a vida toda usando roupa usada, porque é isso que você merece”.

E assim foram os quatro anos mais longos de sua vida. Colocava a mesa e ajudava preparar a comida que nunca podia comer. Guardava brinquedos alheios que nunca podia brincar. O que fazia essa menina levantar todos os dias, é que um dia provaria que todos estavam errados a seu respeito e de sua família. Com 12 anos, escutando os gritos que era ingrata e mal educada, arrumou suas malas e conseguiu um emprego remunerado de empregada doméstica.

Dona Amélia era uma boa mulher e a tratava como filha. Lá ela não passava vontade de nada, ganhava ovos de páscoa e pela primeira vez comemorou o Natal. A mesa posta com louça de porcelana, todo mundo com a sua melhor roupa, as risadas e presentes. Estava maravilhada, mas, ao mesmo tempo, aquela não era sua família e nem sua casa de verdade. Havia muito a ser feito, precisava trabalhar mais ainda. Queria ter um lar de verdade.

Com 18 anos virou professora de datilografia, mesmo não sabendo datilografar direito. Os dedos por diversas vezes escapavam dentro das teclas da máquina de escrever, mas não iria desistir tão fácil assim. A vida foi tomando seu rumo, ficou noiva de Mauro, deixou a datilografia e agora trabalhava num escritório contábil.

Adelina aprendia rápido e de emprego em emprego, evoluía mais e mais. Agora tinha dinheiro para comprar roupas boas pra ela, ajudava sua mãe com as contas da casa, comprou um carro. Mas ela queria mais! Resolveu voltar a estudar, mas seu noivo se opôs. “Mulher não precisa estudar, tá bom o jeito que está”. Naquela época desmanchar um noivado de 5 anos era burrice, um ultraje! Adelina optou pela fama de mal amada. Era melhor ficar pra titia do que não estudar. Matriculou-se no supletivo para cursar o ginásio. Fez o colegial. Prestou todos os vestibulares que conseguiu. Entrou para faculdade de Ciências Contábeis na FMU. As portas em sua carreia abriram-se mais com a faculdade. Adelina era só trabalho e estudo. Estudo e trabalho. Se queria sair do aluguel, aquilo era só o começo.

Entre uma aula e outra na faculdade, acabou conhecendo Roque e as borboletas no estomago voltaram. Se antes sua rotina era preto & branco, trabalho e estudo, Roque trouxe-lhe cores. Conheceu o que a maioria dos jovens faziam naquela época: se divertiam. Ela conheceu restaurantes novos, saíam para dançar e o sorriso era mais solto. Começaram a namorar e Adelina logo pediu Roque em casamento. Juntos, comparam uma casa e o pontapé para ter um lar foi dado.

Agora Adelina tinha o registro de INDUSTRIÁRIA na carteira. Trabalhava em um ambiente 100% masculino. Tinha que ser dura no meio de todos aqueles homens que duvidavam de sua capacidade por usar saia e salto 15. Foi galgando sua carreira na indústria, depois conseguiu um cargo alto e chefiava o departamento de contabilidade de uma grande empresa.

Ficou grávida de Camila, sua primeira filha e não conseguia mais conciliar a carreira, com casamento, estudo e agora mãe. Deixou a faculdade com a promessa que um dia voltaria. A carreira de Roque começou a despontar também e, com isso, ele viajava bastante. Adelina teve que enfrentar situações difíceis, sozinha e com bebê de colo. Mas era forte, uma mulher que aguenta tudo.

Sobrecarregada com a rotina, sofreu uma aborto espontâneo em casa, sem marido pra ajudar, sem amigos para ligar. Era só o sangue escorrendo pelas suas pernas e o desespero de, pela primeira vez na vida, não saber o que fazer.Logo depois engravidou de Guilherme, que nasceu forte e robusto. A família estava completa e sentia-se feliz de verdade. Roque vez ou outra encontrava instabilidade na carreira e Adelina sempre foi o porto seguro da família.

Criar dois filhos demandava muito tempo assim como seu cargo de diretora contábil. Abdicou de sua carreira de sucesso para dar atenção completa para os filhos, coisa que não tivera quando pequena. Adelina quis dar aos filhos aquilo que não tivera quando pequena: atenção e proteção.

Com o tempo, o dinheiro do marido mostrou-se pouco para o sustento da casa e estudo dos filhos. Começou a fazer artesanato. Sua mãe apoiou a causa e lhe deu uma máquina de costurar. Durante anos Adelina ajudou a sustentar a casa com seus bordados, crochê e pinturas. O dinheiro era pouco, toda ajuda no orçamento da casa era excelente.

As crianças tornaram-se adolescentes e Adelina voltou para contabilidade. Os números sempre foram seu forte. A matemática é exata e fácil, quando as relações humanas lhe pareciam complicadas demais. A fama de durona sempre lhe acompanhou como uma sombra. Não escolheu ser assim, mas esse era seu mecanismo de defesa. Teve que erguer a cabeça muitas vezes e engolir o choro quando seu irmão mais velho lhe surrava no meio da rua pelo simples fato de ser mulher. Teve que construir um muro quando era empregada doméstica e patrões achavam que poderiam conseguir algo além.

Esse muro só ficou maior quando o câncer de mama chegou. “Mas você vai conseguir, Adelina. Você é forte”, as pessoas diziam. Será que conseguiria? Toda vez que a enfermeira custava achar a sua veia, toda vez que ia trabalhar e o gosto amargo da quimioterapia subia pela boca, quando o enjoo e vômito não cessavam, ela se perguntava se conseguiria. Foi quando Roque abruptamente morreu de pneumonia. Adelina não teve tempo para ficar de luto enquanto lutava contra o câncer.

O luto, solidão e a falta das cores de Roque, lhe assolaram muito tempo depois. Dá mesmo para continuar vivendo sem seu companheiro, sem seu alívio cômico, uma pessoa que via Adelina não como uma rocha, mas como uma mulher que precisa de carinho e atenção.


Mais uma vez Adelina teve que colocar-se em prova. Desta vez não para os outros, mas para si mesmo. Principalmente para ela! Era sua vez agora. E depois de tanto trabalhar e fazer-se de forte quando realmente tudo está quebrado, agora está aprendendo que é normal chorar quando está triste. Que pode gargalhar alto quando se está feliz. Que não há nada de errado em ser uma mulher decidida e que tem objetivos. Dá pra continuar sim, a vida não para. Nem Adelina. 


Narciza Adelina vulgo #donanarciza @ 2016.

3 comentários:

Filyppe Saraiva disse...

Todo o carinho e respeito do mundo por essa mãe que eu nem conheço, mas considero pacas. Não é a toa que a Camies é foda como é!
Eu não conhecia metade da história da Dona Narciza... Belo texto, Camila!

Parabéns às duas!

Filyppe Saraiva disse...

Todo o carinho e respeito do mundo por essa mãe que eu nem conheço, mas considero pacas. Não é a toa que a Camies é foda como é!
Eu não conhecia metade da história da Dona Narciza... Belo texto, Camila!

Parabéns às duas!

Cris Albu disse...

Que demais, que emocionante! Narciza e Camies, que mulheres, que garra! Orgulho de vocês!