10 de março de 2016

Narcisa Maria da Rocha

Quando Narcisa anunciou para os filhos que casaria de novo, ela não esperava a reação em cadeia de despedaçar sua família novamente, como já tinha acontecido anos atrás. Benedito, seu primeiro marido, pai de seus filhos, tinha morrido há seis anos. Viveu o luto e tingiu todas as suas roupas de preto. Comeu o pão que o diabo tinha amassado, mas sobrevivera. E agora isso. Em sua cabeça, não havia nada demais uma mulher de 44 anos refazer a sua vida. Jonas era decente, alfaiate. Bebia de vez em quando, mas qual homem não gostava da cachaça?

Narcisa já passara por muito e sempre fez as coisas conforme mandava o figurino. Sempre tinha alguém mandando como tinha que fazer, como deveria se comportar. Casou-se com quem seu pai escolheu aos 18 anos. Pariu e criou seus sete filhos: Dionísio, Alzira, Doralice, Irani, Narciza Adelina, Maria Aparecida e Wilson. E só ela sabe como foi criar todas essas crianças. Benedito foi um bom homem e companheiro. Mas a bebida sempre foi um problema em sua vida e o levara cedo demais. 

Viúva e com crianças para sustentar, lavava roupa para fora, logo ali na beira do rio Tietê. Passava roupa também. Quando a falta de dinheiro apertou mais ainda, teve que abrir mão da convivência de sua filha Adelina, que passou a morar na casa de sua comadre. Era isso ou passar fome. Mas Deus era bom e não ousava reclamar das coisas que Ele colocava em seu caminho. Era grata. Tinha força nas pernas e nos braços e não tinha medo do trabalho.

Trabalhou de empregada doméstica, uma casa ali, um escritório acolá. Viu seus filhos mais velhos se casarem e formarem as suas famílias. Cada um seguia a sua vida como bem entendia. E agora, depois de tantas adversidades, depois de tanto café com farinha, não podia seguir sua vida também?

Depois de tanto tempo, seria bom alguém para lhe fazer companhia e Jonas lhe prometera muitas coisas, até o luxo de uma geladeira que até agora nunca tivera. Por que não? Juntou-se com Jonas em 1972 e agora era apenas ela e seu filho caçula, Wilson. Mas seu coração grande de mãe sabia que um dia todos sentariam novamente à mesa num almoço de domingo.

Narcisa tinha seus sonhos e suas vaidades. Queria viver sem aluguel, queria escrever. Não suportava a ideia de não saber ler. Seu pai sempre achou inútil a educação de suas filhas. Ela aprendeu com a mãe como cuidar de uma casa, criar galinha e porco, deixar a roupa branquíssima, como manusear o ferro em brasa e fazer o feijão render mais. Mas agora podia finalmente fazer as coisas de seu jeito. Com certa dificuldade e persistência infinita, aprendeu a escrever seu nome. Narcisa Maria da Rocha. Nunca mais mancharia seu dedão de preto. Tinha um nome, uma assinatura e seu orgulho restaurado.

A vida foi seguindo seu curso, algumas rugas cobrindo suas mãos, as pernas arqueavam-se gradativamente devido osteoporose, o coração não dava mais conta do trabalho puxado de doméstica e aposentou-se. Adelina bateu em sua porta com a ideia de reunir a família novamente. E assim foi. Agora comemoravam Natal e Ano Novo, os aniversários, a mesa de domingo era barulhenta, os netos enchiam a casa de risadas e gritos de crianças. De manhã cedo, Narcisa gostava de colocar o rádio no último volume, acordando a casa toda. Adelina, Maria Aparecida e Wilson precisavam acordar cedo para trabalhar e fazer a vida como ela havia feito. Tinha um orgulho danado de suas crias, mas não amolecia com ninguém não.

A casa era pequena, mas Narcisa era feliz. Escutava música, assistia novela em sua televisão em cores, passava batom vermelho quando ia receber sua aposentadoria. Seus filhos estavam todos casados e agora acompanhava o crescimento dos netos.

E quando Narcisa achou que já tinha conseguido tudo o que queria, os 76 anos de idade, conseguiu comprar o seu apartamento. Depois de morar em tantas casas, umas até com parede feita de barro, agora tinha endereço fixo.

A osteoporose por fim arqueou de vez a suas pernas e passou a andar de cadeira de rodas. Mesmo assim, absolutamente nada lhe tirava o sorriso do rosto. Ela tinha vida em suas veias, ânimo não lhe faltava, tinha muito que ver, sempre tem!


Narcisa queria ter ido até os 100 anos, mas aos 82 atendeu o chamado de Deus e fechou os olhos pela última vez. Em sua bolsa ela levava o seu pente inseparável, o sorriso dos netos e bisnetos, a tranquilidade dos filhos criados, a certeza que tinha aproveitado e vivido bem a sua vida. Não tinha nada do que reclamar. Fora feliz


Narcisa (sentada) e suas filhas: Maria Aparecida, Narciza Adelina e Alzira @ Ano Novo em 2000.

Eu e minha avó Narcisa @ 1996. 

2 comentários:

Narciza Adelina Rocha disse...

Nossa Camila haja coração, estou em lágrimas. Que Deus te proteja e que portas se abram pra você, sua missão aqui na terra é escrever. Me orgulho muito de você e desde pequena percebi esse dom da escrita em você.

Carlinha Salgueiro disse...

Camis cheias de Narcisas e Narcizas inspiradoras. Tá explicada você! Que emocionante.
Beijos!