8 de março de 2016

Marina dos Santos

Quando Marina nasceu no berço de ferro de Mina Gerais, sua mãe resolveu homenagear o distante mar que nunca chegou a ver. Marina não teve muito tempo pra infância, mas naquela época, ninguém tinha. Desde cedo ia buscar água na beira do rio. Era uma caminhada longa de pés descalços pela estrada de terra batida.

Sua mãe era um quilombola bruta, tinha cicatrizes por todo o corpo e quase não falava. Passava os dias cozinhando doce nas panelas de ferro. Marina aprendeu com a mãe o jeito de lidar com a brasa do fogão, o ponto do doce de abóbora, o segredo de um sequilho sequinho e de uma pururuca crocante. Oferecia de porta em porta os quitutes da mãe. Logo cedo caiu na estrada, foi pra São Paulo em um acordo que seu pai fizera com um compadre. A vida na cidade grande seria melhor, prometera seu pai.

Marina sentia a falta do ar fresco das serras e do silêncio de sua mãe. Às vezes antes de dormir ela forçava os olhos para lembrar os traços largos do nariz de sua mãe, o cheiro de fumo do pai, a casa cheirando bolo de fubá. Tudo isso ficou para trás. Nunca mais viu seus pais.

Foi acolhida pela família do compadre de seu pai e agora ao invés de buscar água no riacho, cuidava de uma casa com cinco cômodos, um bebê que não parava de chorar, um patrão que pousava a mão leve em suas costas enquanto ela cozinhava a comida pra família. Achou que estava doente quando veio a menarca. “Neguinha burra, agora você virou mulher”. A cidade parecia que a engolia. Sentia falta das montanhas mas tinha que sobreviver ao concreto.

Conheceu Juvenal e nele a esperança de uma vida nova, de novo. Casaram-se e da casa grande, foram morar em dois cômodos em Santo Amaro, um lugar tão longe que ela achava que ali não era mais São Paulo. Muito matagal e lama, sem montanhas ou muitas casas. Marina estava sem referência novamente.
Agora ela ia buscar água no poço. A casa não era sua ainda, vivia no quintal sogros, mas aquele seria um novo recomeço.

Quando seu primeiro filho nasceu, Marina achou que fosse se despedaçar em dor. A dor em seu ventre a enlouquecia. A falta de ar em seus pulmões, aquela criança que não nascia. Mais um empurrão, mais uma tentativa. O bebê nasceu com 4,5kg em uma tarde fresca de março depois de 20 horas de trabalho de parto. Era uma criança forte e robusta. Juvenal homenageou o próprio pai colocando o nome de Roque em seu primogênito. Roque Teixeira Neto, assim ficou. Reinaldo veio logo depois. Um parto mais tranquilo, uma Marina do minério de ferro bem mais forte.

A vida com as crianças era um pouco mais doce e sabia que era uma boa mãe. Os meninos brincavam na rua de casa. Criava porco e galinha. Plantou alface, couve, abobrinha, pimentão, tomate, batata, cenoura. Tudo parecia entrar nos eixos foi então que Juvenal enlouqueceu.

Marina não sabia se foi a cachaça que deixou seu homem louco ou se foi a loucura que o levou para cana. Reinaldo chorava muito com os ataques de fúria do pai. Juvenal quebrava o pouco que eles possuíam, gritava e chorava muito. Marina rezava quando o marido saia de casa, pedia para Deus e Nossa Senhora Aparecida livrar ela e os filhos de todo mal. Juvenal agora arrancava a pele da boca, do nariz, já não conseguia mais andar. Foi internado no hospital Psiquiátrico do Juqueri e só saiu de lá morto. Ninguém soube explicar pra ela o que aconteceu. Ninguém tinha respostas para suas perguntas.

Viúva e com duas bocas pra alimentar, Marina se perguntava se a morte do marido fora culpa de suas orações. Os joelhos cansados de tanto rezar por um livramento. Que livramento foi esse? Sentia-se mais perdida do que nunca. Roque já era crescido, saía por Santo Amaro catando latinhas e vidros para revender. Reinaldo nunca mais foi o mesmo depois da loucura do pai. Quase não falava e às vezes Marina batia no filho só pra ouvir o som do seu choro e saber que seu caçula estava vivo.

Foi através de uma prima distante que Marina conseguiu um emprego na cidade novamente. Jardim São Bento seria sua morada. Colocou as melhores roupas nos filhos e foi embora sem olhar para trás.

Marina conquistou aquela família pela barriga. Agora era cozinheira. Tinha um uniforme azul e branco, o dinheiro era certo todo mês. Colocou seus filhos na escola. Roque e Reinaldo ganharam peso. Sentia falta de sua horta, mas agora tinha cama para os filhos e ficava feliz em saber que eles aprenderiam as letras e seriam melhores do que ela.

Mas ela queria mais, muito mais. Marina sonhava alto agora. Queria uma casa pra ela, onde ela fosse a patroa. Teve paz em ver os filhos crescerem, se tornaram homens e agora ninguém ia dormir com a barriga doendo de fome. Roque foi um adolescente galanteador, era terrível, um menino esperto, malicioso e cheio de vida. Reinaldo ia bem nos estudos, era apegado aos livros, um menino calado e amoroso. O dia que seu filho mais velho entrou na faculdade, Marina chorou de alegria em seu quartinho pequeno de empregada.
Roque logo foi pra longe do ninho e casou-se. Teve filhos, agora era Marina era avó. Reinaldo era seu porto seguro, sua constante, seu verdadeiro companheiro. Trabalhava feito burro de carga, assim como ela. Uma vez Reinaldo desenhou na contra capa de um livro uma casa, apontou com o dedo e disse “essa vai ser a nossa casa, mãe”. Fizeram planos, juntaram dinheiro. Despediu-se de Jd. São Bento e dos casarões do bairro, agora sua vida e seu pedacinho de chão era em Colinas do Anhanguera.

Com as próprias mãos, Marina construiu a sua casa. Não era grande e luxuosa como as casas do antigo bairro, mas era dela. Construiu ali a sua morada. Descansou. Mas nem tanto. Voltou a entrar em contato com a terra e plantou novamente uma horta, agora maior e melhor. Mas a vida foi ficando cara, as costas doíam, gosto amargo na boca, Reinaldo sem emprego e as contas sempre chegavam. Marina teve que reinventar-se novamente. Tinha duas mãos firmes, fazia doces e sorvetes para vender. Adotou um vira-lata chamado Cheiroso que foi seu companheiro fiel durante muitos anos. Fazia longas caminhadas com Cheiroso até quando a velhice lhe permitiu. Colhia ervas medicinais pelas colinas de seu bairro, se lembrava do tempo distante em Minas Gerais. A velhice tinha mesmo chegado, as pernas finas pesavam uma tonelada, a vista nublada, mas a terra sempre foi uma boa distração. Se você cuidar bem nunca vai faltar.

Marina sempre teve muito medo da morte, do juízo final. Mas com passar dos anos entendeu que ali, que aquela vida ali era seu verdadeiro juízo. Ela se perguntava se a falta de ar nos pulmões era alguma indicação de que as coisas estavam se findando.

Quando Marina deu seu último suspiro, ela sentiu o cheiro de terra molhada das montanhas gerais e do açúcar queimando da panela de ferro de sua mãe. Estava em casa novamente. 

Marina dos Santos, minha vó paterna. Morreu em novembro de 2004.  
 Observe seu uniforme de trabalho, acho que meus pais foram visita-la
 num sábado e fizeram essa foto @ Setembro de 1986


7 comentários:

Narciza Adelina Rocha disse...

Que linda homenagem você fez para sua avó Camila, realmente ela era uma ótima cozinheira, seus quitutes muito deliciosos e aprendi a fazer Tender com ela.
Quando você nasceu ela ficou em casa durante 15 dias me ajudando a cuidar de você.

Gi disse...

Menina, vc escreve muito!!! Lindo texto e, claro, homenagem né. Lindo mesmo, amei muito! Vc, certamente, tem a força dela em seu sangue! Correndo solto e largo! =)

Bjus sua linda!

Faby disse...

Camies, você escreve como ninguém. Que dom menina!
Me emocionei de ler um pouquinho da sua historia e reconhecer você em tantos parágrafos e palavras.
Parabens! <3

Bia Lombardi disse...

Camila de Deus, choray... Caceta, q história verdadeira, de luta e conquistas. Que bom que de alguma forma vc conseguiu remontar essa história. Ela merece MUITO ser contata.

Giulliana Victor Harte disse...

Que linda homenagem, Camila! Me emocionei muito com seu vídeo e agora com a história.

Giulliana Victor Harte disse...

Que linda homenagem, Camila! Me emocionei muito com seu vídeo e agora com a história.

Helen. disse...

Como sempre amei seu texto, nem sempre comento aqui, mas saiba q sempre leio!