9 de março de 2016

Antonia

Quando comecei a estudar no Rui Bloem, eu tinha dez anos e tudo era uma novidade, estava ansiosa. Quinta série, escola pública, vários professores e novas matérias. Foi um choque de realidade tremendo porque eu estava indo pra escola para estudar e muitos das crianças ali frequentavam as aulas para comer.  Eu tinha lápis de cor, canetinha, levava lanche de casa numa lancheira com a estampa de princesa da Disney. Eu sempre fui muito ansiosa, na primeira semana de aula eu sofri um pequeno acidente doméstico com um copo de leite fervendo. Derrubei em mim mesma, ganhei uma queimadura de terceiro grau na barriga e fiquei 15 dias em casa. Quando finalmente fui pra escola, todo mundo já estava entrosado. As meninas me tinham como patricinha e riquinha e a única pessoa que conhecia ali naquela sala, fazia questão de me ignorar porque eu era gordinha.

Eu realmente não sei como teria sobrevivido aquele 1997 no Rui Bloem sem a Antônia* por perto. Eu acho que ela olhou pra minha cara perdida ali na sala de aula e pensou “o que essa menina tá fazendo aqui?”. Ela cuidou de mim tipo irmã mais velha. Apesar de estarmos na mesma série, ela já tinha 13 anos.


Fachada atual do Rui Bloem

Antonia me ensinou com o seu jeito bruto a me defender sozinha naquele cenário novo. Criar coragem e estufar o tempo para revidar quando as meninas me chamavam de Girassol (por causa do meu cabelo armado). Me mostrou como funcionavam as coisas numa escola pública abandonada no meio da favela do Jardim St. Elias

“Ô menina besta, quando eu falo pra cê entrar na fila (da merenda) não é pra cê falar que não. Entra aí, porque como o seu lanche e o meu, tá entendendo?”.

“Girassol, fica vacilando com essas canetinhas. Aqui não é EMEI não, deixa isso na sua casa”.

“Não é todo mundo que tem mamãe e papai pra ficar resolvendo as treta da escola”.

“Aqui ninguém é rico que nem você que ganha presente de aniversário”.

“Camila, cê não pode ficar encarando essas meninas aí não, ô”.

“Você não gosta do Leve Leite dá pra quem precisa”.

“Girassol, você é muito boba. Fica esperta”.

Antonia me ensinou a sobreviver e entender as diferenças sociais do jeito dela, me dando bronca, me beliscando, me cutucando por debaixo da carteira. Ensinou-me a ficar quieta e não reclamar dos meus problemas de menina de dez anos com casa própria, vídeo game e que já conhecia o mar. Eu ajudava Antonia com as coisas da escola (que nem eram tantas assim), ela estava extremamente preocupada porque “quinta série repetia”.

Antonia queria ser cabeleireira e ser dona de um salão todinho branco. Contava os dias para o pagamento de sua mãe cair pra poder comprar Alisabel e depois passar Henê no cabelo. E assim foi a quinta série.

Quando voltei das férias para o novo ano letivo, o nome de Antonia constava na lista, mas ela não estava presente. Depois de um tempo fui procurá-la em sua casa, lá no meio da favela. Uma mulher velha atendeu e disse que Antonia não estava e bateu a porta na minha cara.

Três meses depois, fui vender a minha lata de Leve Leite (coisa que Antonia desaprovava) e me encontrei com ela por acaso, na entrada da favela. Antonia tentou esconder, mas deu pra ver seu barrigão. Tava grávida. “É, tô de barriga, Girassol”. Aquilo foi um choque tremendo. Perguntei quando voltaria pra escola (“é importante ir pra escola, você já faltou um monte!”) e só respondeu “quando der”.

A professora continuou chamar o nome dela até o fim do primeiro semestre. De vez em quando alguém respondia “TÁ GRÁVIDA”. Antonia começou a trabalhar num salão perto ali da escola e nunca mais voltou para escola. Falamos-nos mais duas vezes, quando me pediu pra que eu parasse de procurá-la na favela, porque era perigoso e que ela tinha que seguir a vida e eu a minha.
Antonia engravidou de novo no ano seguinte. Fiquei sabendo disso porque um dia, eu estava ensaiando com a banda marcial em frente da escola e a vi passando, com barrigão e a outra criança no colo.

Em 2004, quando as minhas duas avós morreram, quase uma morte seguida da outra, eu tava achando o mundo um lixo. Estava voltando do cursinho sábado à tarde e o ônibus passou em frente do salão que ela trabalhava. Já fazia alguns anos e por que não dar uma passada ali? Entrei no salão (que hoje nem existe mais) e perguntei por ela.

Antonia morreu fazendo um aborto de sua terceira gravidez, aos 21 anos de idade. Não tinha dinheiro para manter mais um filho, não aguentava mais apagar fogo com gasolina e optou por não colocar outra criança no mundo, que não teria como sustentar sozinha. E assim, dessa forma abrupta, morreu de hemorragia no quartinho de favela deixando duas crianças sem mãe.

E o pai? Ninguém me respondeu.

Daí você me fala que ela tinha opções, que ela poderia se prevenir, que existe pílula e camisinha. Nem eu e nem você sabe em que cenário essas crianças foram geradas. Não me cabe julgar. Existia um namorado? Eu nunca vi essa mulher com namorado ou falando de homem pra mim em nossas conversas. Antonia não tinha pai, mas eu lembro que ela tinha uma espécie de padastro. Será que o filho era dele? Será que ela foi abusada? O que realmente aconteceu?  Será que foi apenas um caso de falta de informação para essa mulher negra, da periferia de São Paulo, que parou de estudar aos treze anos de idade?

Foi “descuido” de quem? De Antonia, do homem que a engravidou, do Estado? Quando falamos de aborto temos a tendência de individualizar essa questão. “Ah, eu não faria”, “minha religião diz que...”. Pouco me importa o que a sua ou a minha religião diz, qual é sua escolha ou não. Eu quero que exista a possibilidade de TODAS as mulheres abortarem em um AMBIENTE SEGURO. As mulheres JÁ ABORTAM. Mas morre é quem não tem dinheiro, quem cai na mão de uma pessoa que não pode exercer a Medicina.

A história da Antonia é assim, curta e rápida. Poderia ter sido muita coisa, mas não deu tempo.



RJ – Véspera do Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna, feministas em ato na Praça XV, defendem a descriminalização do aborto e destaca o alto índice de mortes em abortos clandestinos. Foto de Fernando Frazão/Agência Brasil.

*troquei o verdadeiro nome dela.

4 comentários:

Moon Goddess disse...

Caracas, N coisas passaram pela minha cabeça enquanto lia a história de Antonia mas não consigo colocar em palavras...
R.I.P

Mirian Soares disse...

Ai, Camis, que relato doloroso. Quantas e quantas vidas são perdidas todos os anos? :(

Odonir Oliveira disse...

Quantas moças soube que passaram por isso, Camila, quantas! Há que se agir sem mimimis para poupar vidas e evitar desilusões desnecessárias; estamos no século XXI....
Seu texto é pungente. Quero ser sua leitora e aluna para sempre, viu.
Beijo.

Cris Albu disse...

Pois é, amiga...e quantas Antonias existem...além do aborto seguro, questão de acesso a saúde, nisso país necessita de educação, informação...não demais presídios, obras, estradas...as pessoas estão alienadas da realidade...também quero ser sua aluna sempre, igual a menina falou no outro comentário, e queria que todos fosse, para "abrir" umas mentes por aí...