22 de outubro de 2015

Diário de pequenos troféus

Estou sentada no chão da sala, com o notebook apoiado nas minhas coxas, tentando me concentrar num texto que nunca sai. O cursor do mouse piscando, o prazo do editor é curto, os ganchos das pautas estão anotados em um papel amassado. Antigamente, antes de você, era só sentar e escrever. Escrever sobre qualquer coisa, sobre livros, música, política, de vez em quando até poesia. Mas agora me distraio e me perco pensando em você, nos planos em conjunto, em nossa rotina. 
Amo o barulho das suas chaves batendo na mesa de vidro da sala. Significa que você chegou. Eu fico ansiosa para essa parte do dia. Daí eu levanto os meus olhos e encontro os seus. Às vezes é um olhar cansado, mas sempre vem acompanhando de um sorriso. Será que você vai sempre me dar esse sorriso, mesmo cansado? Será que vou sentir essas borboletas no estômago toda vez que suas chaves batem na mesa?
Você senta ao meu lado me dando um beijo desajeitado no pescoço, perguntando como foi meu dia, se consegui terminar as pautas acumuladas. Olho bem fundo nos seus olhos e tenho vontade de realmente contar como foi o meu dia. 
O meu dia foi pensando nos meus sons e aromas rotineiros favoritos desde que estamos juntos. O ruído metálico das suas chaves, todo estardalhaço que você faz de manhã no banheiro quando acorda, o baque surdo do sofá batendo contra a parede quando a gente transa, e a rouquidão do seu gemido no meu ouvido. Gosto do cheiro do seu café, o aroma do seu brigadeiro de panela que sempre acaba queimando um pouco e da sua loção pós-barba.
Mas eu não falo nada e guardo pra mim. Beijo seus lábios e digo:
— Que bom que você chegou.