21 de maio de 2015

Eu, Camila Rocha 28 anos, ansiosa.

Ansiedadeânsia ou nervosismo é uma característica biológica do ser humano, que antecede momentos de perigo real ou imaginário, marcada por sensações corporais desagradáveis, tais como uma sensação de vazio no estômagocoração batendo rápido, medo intenso, aperto no tóraxtranspiração, e outras alterações associadas à disfunção do sistema nervoso autônomo.
Toda vez que os meus (mil) endócrinos constatavam "Você é ansiosa, né? Vou prescrever um remédio aqui que vai te acalmar", eu ria internamente e pensava que não era ansiosa coisa nenhuma. A primeira médica que me prescreveu fluoxetina pra ansiedade foi em 2006. Eu tomei durante um tempo, meio relutante, meio desconfiada. Mas me dava pesadelos (????) e nunca realmente me senti ~diferente~. Tomar ou não a tal da fluoxetina não dava nada, a não ser pesadelos terríveis. Acumulei receitas, os remédios perderam a validade e nunca mais tomei.

ANSIEDADE? BESTEIRAAAAAAAAA

Quando as pessoas falam de Transtorno de Ansiedade, eu imaginava uma pessoa ultra nervosa, estérica, com pressa, gritando, fatigada, com gastura e palpitações e a Camila de 2006 não tinha nada disso. Nunca achei que realmente fosse ansiosa. Quem me conhece pessoalmente sabe, eu sou uma pessoa tranquila, quase não fico nervosa, é difícil me irritar, levantar a voz e essas coisas. Eu evito briga e conflitos o quanto eu puder (ascendente em libra, RISOS) e toda vez que a endocrinologista falava "e a ansiedade?" eu respondia sempre com "que ansiedade?!". Hahahahaa! Não era como se eu negasse a doença ou algo do tipo, mas eu jogava no Dr. Google (ERROR!) o perfil de uma pessoa ansiosa e realmente não me identificava, achava exagero dos médicos. Única coisa que foi se gravando era a vontade de comer sem estar com fome.



O tempo passou, ganhei peso/perdi peso ad infinitum, rolou aquele estresse emocional de pai e mãe doente ao mesmo tempo, e depois disso, me vi um pouco mais preocupada do que o normal com certas situações. Minha mãe demorava um pouco pra chegar em casa e já pensava em mil tragédias, o telefone tocava e já pensava em desgraça. Qualquer coisinha já me deixava em estado de alerta e um frio na barriga intenso. Eu ainda achava que era um estresse pós traumático, da supervisora mala da ~firma, da canseira da hotelaria como um todo.

 
TELEFONE TOCANDO: FUJA PRAS MONTANHAS!!!!1111

Ano passado eu estava trabalhando em um lugar super tranquilo. Era eu, Rafael e os computadores. Não tinha estresse como na hotelaria, sem hóspede gritando, sem gente que perdeu o vôo querendo te bater ou ter que trabalhar até mais tarde por causa de overbooking. Mas eu me sentia cada vez mais cansada e quando tinha que dormir, não conseguia. E a insônia só foi piorando. Minha pele começou a descamar, fui no dermatologista e ele disse que era psoríase, falou que era doença de "gente estressada", me receitou umas loções e disse pra me acalmar. O problema é que eu achava que tava tudo bem, eu estou calma.
A psoríase nas pernas não melhorava e aquela sensação de sufocamento, palpitação, de que iria acontecer alguma coisa ruim só foi aumentando. Fui no cardiologista pra ver essa palpitação que sentia, mas não tinha nada. Pressão normal, sem colesterol, sem diabetes e qualquer coisa que justificasse aquele coração acelerado e sensação de borboletas no estômago o tempo todo.

EUZINHA POR DENTRO 

Chegou um determinado momento que toda hora me vinha o pensamento ruim de ser atropelada ali na Avenida Ibirapuera. O trânsito da Zona Sul comparando-se ao da Zona Oeste de São Paulo (o qual estou habituada) meio que parece um mini Rio de Janeiro. Sério, aqueles carros, os ônibus correndo nos corredores e aquele trânsito infernal me deixava num estado alerta imenso. Não conseguia ler, escutar música e nem dormir (sou expert em dormir em ônibus haha) durante as viagens de ônibus do trabalho pra casa. E era uma viagem de 2h30 de Moema até Pirituba. Era horrível. Tinha vezes que me dava formigamento nas pernas.
Sem contar que retomei um péssimo hábito que tinha largado há anos: stalkear. Nunca cobrei ninguém de responder e-mails/mensagens/sms e afins, mas o fato da pessoa demorar pra tomar uma decisão/atitude que me afetasse diretamente me deixava louquíssima. Qualquer tipo de espera me consumia, dai começava rastrear fulano e entender o porquê da demora. Se tava online, olhava no 4square, última vez que entrou no whatsapp, última vez que tuitou e fazia isso ciclicamente. Na mesma época, eu pegava carona com a minha prima até a metade do caminho pro escritório. Cada dia eu acordava mais cedo. A gente saia de casa oito da manhã e eu despertava cinco e meia e não dormia mais, com medo de perder a hora, pensando no trânsito e nas mil coisas que teoricamente poderia me fazer chegar atrasada.
Em outubro voltei na endócrino pra saber como tava minha tióride e exames de rotina e ela perguntou como eu estava. Falei que estava bem (HAHAHAHAA), comentei da psoríase, a médica achou estranho e perguntou da fluoxetina. RISOS NERVOSOS. Olha, eu não tomo isso daí desde a época da faculdade. Tive uma conversa franca e resolvi falar das coisas que estava sentindo, mas achava que era tudo bobagem e coisa da minha cabeça. Dra. Daniela DEU RISADA DA MINHA CARA.

KIRIDINHA, VOCÊ ESTÁ COM UM TRANSTORNO DE ANSIEDADE DOS BÃO.

Logicamente que contestei, disse que não era bem assim. Daí, a Dra. Daniela me disse: tá, então você vai tomar isso aqui durante um mês e depois a gente conversa, ok? Aceitei. Ela me deixou bem assustada, pra falar a verdade, falou que poderia virar uma síndrome do pânico. Imagina! Eu adoro uma rua, sair por aí, chegar em casa com o sol batendo na bunda, imagine só ficar com síndrome do pânico. Comecei a tomar um remédio chamado Bup (caro pra carai) e só então percebi como eu estava alucicrazy. Eu estava doente de verdade. Em dezembro, comecei a fazer terapia e olha, posso dizer que sou outra pessoa. Eu me contenho demais em alguns aspectos e de alguma forma a insatisfação da carreira profissional, essa minha mania de tentar ser uma pessoa razoável em momentos que eu preciso falar CHEGA, acabou piorando tudo. E a terapia me ajudou a colocar muitas coisas pra fora e me sentir mais segura.
Comprei umas cartolinas amarelas e anotei todas as coisas que precisava mudar no meu comportamento e grudei na parede do quarto. Todos os dias eu olhava aquela cartolina com letras garrafais e aquilo virou um mantra. Depois fiz outro cartaz com uma lista de coisas que precisava fazer e me dei um prazo longo pra resolvê-las até dia 31.07.15. Acabei que resolvi todas as coisas da lista com calma, depois fiz mais outra lista e resolvi tudo com calma. Já estou indo pra quarta versão da cartolina.
Outra coisa que me ajudou bastante foi tirar o aplicativo do Facebook do celular. Não sou a maior fã da rede, eu passo um certo nervosinho com a cagação de regra e com pessoas que falam uma coisa no Facebook mas na vida real são completamente o oposto. Percebi que perdia horas entrando de cinco em cinco minutos no site, procurando ~novidades~ sendo que era tudo mais do mesmo. Dai, arranquei o app do celular e foi a melhor coisa que eu fiz. Ainda uso o Facebook, mas de uma forma muito mais sucinta.
Como eu disse aqui, comecei a escrever em cadernos e fazer um diário novamente e isso me ajuda MUITO MESMO. Manter a cabeça ocupada com coisas que eu gosto de fazer, me ajuda a relaxar de verdade. Já não tenho mais palpitações e nem aquela sensação de frio na barriga constante. A sensação de que alguma tragédia pode acontecer com minha família e aquele medo de ser atropelada também passou. Ainda ando meio ressabiada quando ando de carro com a minha mãe, mas aquela neurose de acidente passou.
Mas, Camila, o que você quer dizer com esse textão todo? Eu aprendi que essa história toda é que o corpo dá sinais de que as coisas na sua cabeça não estão essa maravilha toda. Meu corpo precisou desenvolver uma doença dermatológica e, mesmo assim, não levei a sério. Então, primeiro de tudo, SE LEVE A SÉRIO. Se você está se sentindo mal, já procurou médicos, fez exames e não deu em nada, é sinal que você esteja desenvolvendo algum problema psicológico. Eu passei muito tempo da minha vida vivendo a vida dos outros, então, cada dia mais estou vivendo a MINHA VIDA. Prestando atenção NAS MINHAS COISAS, traçando os MEUS OBJETIVOS. Os meus problemas são importantes sim e preciso cuidar deles. Não adianta querer ajudar todo mundo e deixar minhas coisas de lado e não se dar a devida importância.



Procure um médico, psicólogo, psiquiatra. Só tomar remédio ou só fazer terapia não ajuda. É tipo comer um macarrão sem molho. As duas coisas são complementares. Não tenho medo de ficar dependente de remédio ou de não conseguir dar um passo sem a minha psicóloga. Essa ajuda médica é pra gente se entender e desfazer os nós da cabeça. E é maravilhoso perceber como você está progredindo. Desde outubro que comecei a levar a sério e entender que sofro de transtorno de ansiedade, até a minha respiração está melhor. Sem contar que pedir 13 fucking quilos. WOW!
Tire um tempo pra fazer alguma coisa que você gosta. Sei que estamos nesse mundo moderno que as coisas são pra ontem, mas das uma desacelerada e tirar um tempo pra fazer algo que te relaxe ajuda demais com as borboletas no estômago. Eu descarrego minhas energias escrevendo, mas cada um sabe da sua válvula de escape, então, use-a.
Respire fundo. Literalmente. Parece besteira, mas ajuda muito. Em fevereiro/março estava no ápice da sofrência de uma paixonite, daí enchia bexigas aqui em casa e procurava uns exercícios de respiração no youtube. Deu super certo e aliviava a gastura toda.
E tem que ter paciência. Muita paciência. Paciência com os outros e entender que você, pessoa ansiosa, provavelmente já fez tudo o que podia fazer e tem que esperar mesmo por uma situação ser totalmente resolvida, por mais inquietante que isso seja. Paciência no tratamento porque não é de um dia para o outro que as coisas melhoram, mas elas melhoram! A tendência é melhorar, haha. Pedir ajuda dos amigos/familiares. Às vezes a gente reluta tanto e tenta resolver tudo sozinho que nem vê a mão estendida que as pessoas oferecem. E como a Dani disse neste post maravilhoso, você não está sozinho \o\



7 comentários:

Bia Lombardi disse...

afff, tão eu <3

Helen. disse...

Já tive problemas seríssimos com a minha ansiedade, q era aquela do tipo que dava taquicardia intensa misturada com enjoo misturada com a certeza absoluta q eu estava morrendo, enfim comecei a tomar remédios e resolvi q sei lá era uma boa ideia mudar de país. Obviamente é uma péssima ideia alguém com transtorno de ansiedade em tratamento passar por uma mudança tão significativa quanto mudar de país, no final das contas, por erro de dosagem de medicação, estresse fudido e solidão (afinal eu tava longe da família e amigos e tudo o q eu conhecia) eu acabei desenvolvendo uma depressão, meus pais tiveram que ir lá em Portugal me resgatar. Depois disso, foram 2 anos de tratamento, com remédio, terapia e muito amor de familiares e amigos, hj acho q posso falar q estou bem, pelo menos não estou mais deprimida e me sinto muito bem com a minha vida no geral. Mas esse teu texto me lembrou algo importante, tenho q voltar pra terapia, sério, ajuda muito mesmo, não quero nunca mais ter crises de ansiedade ou depressão e pra isso é preciso ficar sempre vigilante. Enfim, boa sorte ai, sei como essas coisas são fudidas, adoreiiiiii o texto, só pra variar né hauhauauaua

Helen. disse...

P.s.: sempre tive uma preguiça absurdaaaaaa de fazer exercícios físicos, mas esse ano eu me dediquei completamente a eles e olha ajuda muitooooooooo, depois de uma aula de muay thai acho q qq pessoa é outra pessoa, impressionar como aquilo alivia o estresse. Correr tb ta ajudando muitoooooo, nunca achei q fosse liberar endorfina com exercícios físicos (sempre achei o maior migué essa história) mas é de verdade mesmo a parada. Depois q a gente passa do primeiro mês fudido o negocio fica bom, até o sono melhorou.

Unknown disse...

Camis hj eu nao sei quem seria nem onde eu estaria se não tivesse a ajuda da minha psicóloga. Vc disse uma coisa muito libertadora, sobre nao ter medo de ter sempre remedios e viver com a psicóloga sempre do lado, se for preciso será preciso, e só quem passa por alguma situação assim extrema entende isso. É maravilhoso o progresso, eu demorei um pouco e eu sempre fala pra ela "vai passar?" E ela "vai", constantemente na mesma sessão. O progresso era amravilhoso e eu via o quão forte eu era e nem imaginava. Imagink você agora nessa sua nova vida, imagino a sua alegria em cada retirada da cartolina, cada passo conseguido!
Desejo muito sucesso pra você, nao vem de um dia para o outro, mas um dia você vai olhar pra trás e ver que vc passou por tudo isso.

Unknown disse...

É a Dani foi sem nome

Mica Lopes disse...

Olha, eu sempre desacreditava, como você.
Mas sabia que a doença existia, afinal vivia ela em casa, com a minha mãe.
Mas nunca, NUNCA imaginei que aconteceria comigo.
Eu já sou ansiosa por natureza, comecei a tomar "calmantes" desde que sou criança.
Entrei em um emprego onde me sentia "perseguida", sai, melhorei, arrumei outro, me senti perseguida de novo, sai, troquei, me senti perseguida (de novo...), saí... arrumei outro, e surtei... Surtei BONITO.
Procurei ajuda.
Olá, Mica, meu nome é Sindrome do Pânico e agora serei sua companheira de aventuras...
Hoje sei os meus limites, hoje me cobro um pouco menos, e sei quando devo parar. Tenho analista toda semana, e toda semana tenho que controlar a minha ansiedade, a minha irritação.
Eu sou uma mini Hulk, disso eu tenho consciencia... mas dá pra viver com essas bonitas, é só vigiar, mas dá pra viver...

Juliana Vieira disse...

Camies, de alguma forma eu também sou assim. Andei muito tempo cuidando dos outros e me deixei. Deu ruim demais. Hoje presto muita atenção em mim e faço coisas que me deixam relaxada. E como ajuda.
Super feliz por vc estar bem minha eterna dondoca linda!
Um bju!
Juliana