1 de maio de 2015

3 anos, 36 meses, 1095 dias

Hoje completa três anos que meu pai morreu. No primeiro ano, em 2012, no primeiro dia de qualquer mês que se iniciava, eu lembrava "hoje fazem dois meses, hoje fazem seis meses" e assim por diante. O primeiro ano foi difícil, os primeiros meses foram doloridos e enlouquecedores. Pai morreu, mãe com câncer, eu tinha acabado de começar num emprego novo...  A gente continua mesmo achando que não consegue continuar, aos trancos e barrancos. 
Sempre fui uma pessoa que vive o presente, um dos meus maiores defeitos é não fazer esse planejamento pro mês que vem, pro próximo semestre, do ano que vem. Pra tudo! Pra dinheiro, pra roupa, pra situações. Não sou a pessoa que guarda uma roupa xis, ou um perfume pensando em suar NUMA DATA ESPECIAL. Eu amo um sapato, eu vou usá-lo até fazer furo. Usei minha bolsa favorita até descosturar e praticamente derreter. Todos os dias são especiais, de uma forma ou outra. Aproveito as situações, os rolês, as paixonites, a melancolia, tudo. Memorizo coisas que meus amigos falam e tomo como lição, eu sempre vejo um significado além daquilo que possa ter para as demais pessoas. Quando meu pai morreu, eu fiquei com isso mais aflorado. A vida é breve, a gente tá aqui e amanhã pode não estar, tanto para coisas boas (uma viagem, um mudança) ou para coisas ruins (tava passeando pelo Nepal e pá, vem o terremoto). 
O peso deste dia, do primeiro de maio, este ano já não tem o peso que teve ano passado e nem ano retrasado. Eu sinto falta do meu pai, muita. Minha mãe sempre fica muito triste nesses aniversários de morte, na semana que meu pai faria aniversário, nas festas de fim de ano. Eu já reajo de uma outra forma, assim com meu irmão. E tá tudo bem. Cada um sabe da sua dor. 
Eu lembro que no começo eu simplesmente não me conformava do meu pai estar enterrado. Ok ele estar morto, mas a coisa de estar ENTERRADO me incomodava muito. Não me conformava da gente ter deixado ele lá no Cemitério do Jaraguá. Tô com saudade dele, quero pegar na mão, quero brigar pelo controle remoto, quero reclamar da comida dele sem sal, quero vê-lo. Vamo lá no Jaraguá AGORA e, sei lá, enterrar ele no quintal (!). Ele é meu pai, ele tem que ficar aqui. 
Loucura? Pois é. Eu penso nisso e dou risada. Eu falava pra minha mãe disso, que não me conformava em saber que estávamos em casa e e ele lá no cemitério, há 4km de nós. Vamo lá pegar ele, sei lá, quero vê-lo de novo. Sonhei até que ele voltava pra casa e tínhamos que reaver os documentos dele de novo. OI? Luto, negação total. 
Depois de um tempo aprendi a lidar com situações indesejadas, algumas pessoas forçam situações, falam coisas ruins, do tipo "NOSSA SE EU FOSSE VOCÊ EU NÃO CONSEGUIRIA" e derivados, tipo "se meu pai/mãe morre, eu morro junto", "Deus me livre isso acontece comigo", "pra que velório?!". 
Aprendi que você pode fazer uma ideia dessa dor de perder pai e mãe só quem passou por isso. Eu não sabia que doia tanto. Aprendi que o velório é pros vivos, pra família se consolar, do que pro morto. Velório é ruim, aquela situação do morto, do cheiro de flor, do cansaço é ruim. Mas os abraços, quando alguém segura a sua mão, quando te levam um café e você nem se lembrava que estava com fome, um amigo que não fala nada mas o olhar é tudo, naquele momento ali é importante. Aprendi a lidar com músicas que meu pai gostava e que tocavam por aí e, no começo, era como levar um tiro. Mas agora tudo bem. Aprendi que saudade não tem hora e nem local pra chegar, mas a dor uma hora vai embora. Aprendi a lidar, aos trancos e barrancos, com a ausência do meu pai nas festas de família e que se um dia eu casar, quando eu lançar meu livro ou ter meu primeiro filho, ele não estará aqui. Isso dói ainda e sempre vai doer, porque essa coisa de amar é compartilhar. E a gente compartilha as coisas com quem a gente ama. 
Meu pai com seu um metro e noventa e três de altura e aquela gargalhada alta não estará aqui pra folhear meu livro, segurar o meu filho ou o filho do Guigo, nem levar o café da manhã na cama pra minha mãe aos domingos como ele fazia, mas com esses 1095 dias de ausência física, por mais clichê que isso possa parecer, eu trago a memória dele viva comigo e enquanto eu escrevo esse texto. Ele vive em mim, nas músicas e nas coisas que aprendi com ele. E eu tenho que continuar viver e fazer minhas coisas, manter essa memória comigo até o dia que eu não esteja mais aqui e o reencontre onde quer que ele esteja. A vida é assim, então, vamos vivê-la. 

Eu gosto muito dessa foto. Livin la vida loca!


7 comentários:

Dri Pepper disse...

Meu deus, tou chorando aqui. Como pose seus posts serem tão bonitos, tão emocionais. E olha a coincidência, meu pai faria aniversário hoje. Daqui a algumas horas eu iria pra Pirituba, levando uma barra do chocolate favorito dele... enfim, desculpa falar de mim, mas é como você disse, só quem passou sabe como dói. E dói e dói e dói e eu acho que a gente só consegue continuar vivendo quando deixa doer o tempo que precisar. Meus dias sem meu pai já passaram dos dois mil e esses aniversários ainda são difíceis, mas se a opção é esquecer, então melhor que seja assim mesmo.

E eu quero muuuuito ler seus livros hahahaha

gustavo pereira disse...

Que texto lindo!!!

E que foto maravilhosa!

<3

Helen. disse...

Texto como sempre lindíssimo e inspirador, simplesmente amo o jeito como você escreve, simples, bonito, tocante. Muita luz pra você e sua família, não tenho nem ideia do q é perder alguém tão próximo, mas admiro demais você por seguirem frente e viver o momento. Aproveite sempre, a vida é mesmo curta.

Ana Carô disse...

Camis, toda vez que você escreve sobre seu pai eu choro. Choro porque realmente não consigo imaginar a dor e me dói muito que você tenha passado por isso. Choro porque é lindo, você sempre fala da alegria e energia que ele tinha (e que tenho certeza que foi passada pra você). E além disso, choro porque acompanhar seus textos por essa fase é tão cru e visceral que toda vez tento me imaginar calçando seu sapato e passando por isso. E toda vez saio daqui do blog te achando mais foda ainda. Vc é foda, Camis. E isso a vida só vai ter mostrar cada vez mais. A cada conquista mais que merecida que você alcançar, seu pai vai estar com você. <3

Rozz disse...

Que amor de texto. Tem alguém sorrindo lá em cima <3

Veronica disse...

Olha... queria muito te dar um abraço agora, grifa. E toda essa força que você tem me inspira a ser uma pessoa melhor <3

Cris Albu disse...

Lindo, lindo, lindo Me identifiquei. Perdi meu pai há 20 anos e minha mãe ano passado. A saudade não sara, a gente é que se acostuma...muito difícil, amiga. Um beijo no seu coração lindo.