1 de maio de 2016

Maio chegou

4 anos hoje. E cada ano que passa é uma sensação diferente. Angústia. Aceitação. Saudade sem tristeza. Boas lembranças. O destino levou o último sopro de vida do meu pai em maio. E agora, o destino sopra novamente, desta vez nos trazendo uma nova vida: a Rafaela. Minha sobrinha nasce neste mês. É um novo ciclo que está prestes a começar. 
4 anos para entender, assimilar, aprender com os dias ruins e sorrir com os dias bons. 4 anos para entender que a vida continua e que vale a pena a caminhada, porque não saberemos nunca quais serão as outras surpresas que o destino nos reserva, se a gente desistir de caminhar. Saudades eternas. Continuaremos.

A vida não para.


28 de abril de 2016

Digitalmente analógica

Digitalmente analógica.

No meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho. Mas não me surpreendi. Minhas retinas mais ou menos fatigadas já tinham checado previamente o caminho no Waze. O aplicativo traça as melhores rotas, mas eu ainda preservo meus próprios caminhos e atalhos pelo bairro.

Agendo os médicos no planner do celular. Dou comando de voz no Google perguntando qual será a previsão do tempo. Mas, se minha mãe fala pra levar casaco, eu levo.

Twitter.
Snapchat.
Tumblr.
Pinterest.
Facebook.

Estou em todas as redes sociais. Aplicativos mil para facilitar a vida cotidiana, mas ainda controlo meu ciclo menstrual na folhinha do calendário.

Dia desses resolvi me atualizar, fazer um curso de escrita criativa, me inteirar das novidades. Na bolsa, papel e caneta. Na sala de aula, os alunos tiravam fotos dos slides e faziam anotações diretamente no iPad. Todo conteúdo da aula estava disponível para download. Eu estava com a minha caneta bic azul nas mãos, olhando aquela movimentação tecnológica como se eu nunca tivesse visto todos aqueles gadgets.

Sala de aula e aprendizado sempre me remeteu à escrita cursiva. Vejo muitos vídeos no YouTube, dou joinha e compartilho, mas se acho o conteúdo realmente interessante, anoto as referencias em um caderno para usar mais tarde.

Nascida nos anos 80, criada nos anos 90 e virei adulta na virada do século. São muitas referências e levo todas elas comigo. Fiz trabalhos escolares em folha de almaço, tirei muita xérox de 10 centavos na faculdade. Tenho um Kindle, mas não dispenso meus livros físicos de maneira alguma. Gosto de abrir o livro, grifar com marca texto, fazer anotações em letras miúdas na borda das páginas.

O trabalho de conclusão de curso da faculdade foi feito a quatro mãos no GoogleDocs, mas muitas das pesquisas foram feitas nos livros da biblioteca.
Gosto de estar no meio. É divertido essa lacuna a qual pertenço. Raciocínio analógico e organização digital..

Tenho inúmeras playlists no Spotify, mas não dispenso promoção no bacião de cd’s e dvd’s nas Lojas Americanas. Kindle revolucionou minhas metas de leitura, mas não posso esquecer-me de devolver o livro que peguei emprestado na biblioteca semana que vem. Ligo pro delivery de comida que foi previamente escolhido verificando as referências na internet.

Sou meio assim, meio mozarela, meio calabresa. Levo sempre uma caneta na bolsa assim como o carregador do celular. Anoto no caderno os pensamentos soltos e organizo as referências estéticas no PinterestSou meio assim. Digitalmente analógica. Analogicamente digital. 



14 de abril de 2016

Em defesa das orelhas em livros!

Esses dias circulou bastante pelo meu feed de notícias no facebook essa ilustração:



Bom, eu sou um monstro. Não só faço orelhas no livro quando me falta um marcador, como faço anotações nas páginas, escrevo notinhas e impressões no rodapé. Faço exclamações, grifo com caneta marca texto palavras chaves ou parágrafos inteiros. Quando gosto muito de uma publicação, eu tenho um sentimento bem passional. Minha coleção de livros do Harry Potter está bem gasta. Li, reli, li de novo, anotei, emprestei, grifei, usei a contra capa de marcador de página. Esses livros estiveram embaixo do meu travesseiro, dentro da mochila junto com os cadernos da escola, no banco de trás do carro, dentro da bolsa de praia dividindo o lugar com areia e protetor solar.

Leio comendo? CERTAMENTE! 

O livro pra mim é uma ferramenta e, como uma boa ferramenta, precisamos usá-la. Então, eu me permito fazer anotações na cópia que adquiri. Quando eu abro “Harry Potter e Prisioneiro de Azkaban” e vejo as características e frases do personagem Remus Lupin, sublinhadas com lápis, lembro exatamente porque marquei aquelas passagens. Em “Garota Exemplar” da Gillian Flynn, tem uma anotação no final do livro que me fez rir esses dias “eles se merecem”.

Também não me importo de emprestar os meus livros. Acho que livro DEVE ser emprestado, deve ser compartilhado. As ideias precisam circular, se movimentar por aí. Que graça tem ler uma coisa sem poder compartilhar e discutir a história com alguém? Empresto os meus livros sim, com todo prazer. Tem pessoas que eu faço questão. Mando mensagem no whatsapp “CÊ PRECISA LER ISSO AQUI!”. Só peço que me devolva em bom estado. Já me devolveram livro sem capa, faltando página e sujo de terra. Assim não dá, né? Temos que ter respeito com a obra. Não acho que marcar uma passagem fazendo uma orelha na página ou com um marca texto seja desrespeito. É quase uma homenagem. Você gostou tanto que quer destacar de todo o resto. O chato é não devolver um livro. Ou devolvê-lo em estado lastimável. E quando pego algo emprestado (biblioteca ou de amigos), eu trato aquele exemplar da melhor forma possível. Lavo as mãos antes de ler (coisa que não faço nem com os meus). Caso eu leve o livro na bolsa, coloco dentro de uma sacola plástica e pronto!

Estou aqui em defesas dos ditos MONSTROS. Em nome dos MONSTROS, digo que marcar as páginas com a própria contracapa do livro não é desleixo, é praticidade. Contracapa foi feita pra isso! Salvem as orelhinhas, as anotações, os sublinhados, o marca texto amareloazulverdelaranja

Livro foi feito pra ser vivenciado. E se a minha vivência é um pouco mais ~emocionante que a sua, não significa que sou MONSTRO, uma orelhinha não faz mal há ninguém :P 

Vivência emocionante! 

5 de abril de 2016

Documentário: The Hunting Ground

The Hunting Ground é um documentário sobre os inúmeros casos de estupro nos campus das universidades dos Estados Unidos. Eu fiquei impressionada enquanto assistia, seja por conta dos relatos das vítimas que foram estupradas e como as instituições acadêmicas se mobilizam para ENCOBRIR os fatos, desacreditar as vítimas e não resolver os crimes.

“Por que eu não estou gritando? Por que ninguém vê isso? Quando você está apavorada e não sabe o que está se passando com você... Você simplesmente fica ali e espera que não morra. E era isso que eu esperava”

88% das vítimas de estupro não reportam a violência (dados do documentário). As universidades omitem os casos para o governo. Os administradores desencorajam as vítimas a reportarem formalmente porque uma vez reportado o abuso, vira domínio público.

A narrativa principal deste documentário fica por conta de duas alunas, Annie E. Clark e Andrea L. Pino que se mobilizaram para ajudar as vítimas de estupro dentro do campus da Universidade da Carolina do Norte. Juntas conseguiram achar brechas no sistema burocrático de leis e processos administrativos da universidade, foram ligando os pontos e perceberam que o problema era muito maior do que pensavam.



Lady Gaga (que também é uma sobrevivente de abuso sexual) compôs a música que faz parte do documentário: Til It Happens To You. Inclusive eu acho que deveria ter vencido o Oscar, mas, imagine se a Academia iria premiar uma música que fala sobre abuso sexual?


The Hunting Ground é realista, impactante, deixa o estômago embrulhado e os nervos à flor da pele por causa de tanta impunidade e descaso com um assunto tão sério que é a violência sexual e como isso se tornou banal, porque os estupradores raramente são punidos.


Tem que assistir! Está disponível na Netflix. 

31 de março de 2016

You're beautiful as you feel

Sabe quando você escuta uma coisa e não consegue parar de pensar nisso? Estou assim tem pelo menos um mês. Estava assistindo de madrugada meu feed no snapchat, quando uma pessoa muito querida disse que era um lixo. “Eu sou um lixo”. Eu pude sentir na hora o peso daquelas palavras e de que ela estava falando sério, apesar do sorriso.

Nas redes sociais, principalmente no Twitter, estamos acostumados a ler quase todos os dias “queria estar morta”. Aquele desabafo cômico/irônico que beira a banalidade de tantas vezes que lemos durante o dia. Mas esse negócio do LIXO, de ser UM LIXO, foi a mesma coisa que tomar um soco no peito. Eu revi aqueles snaps mais de três vezes. Quis escrever alguma coisa e falar “tá louca, VOCÊ NÃO É UM LIXO”, mas não sabia como dizer e convencer aquela mulher que ela é inteligente sim, bonita, divertida. Não tem nada de lixo!

Quantas vezes eu me senti assim no alto dos meus 20 e poucos anos? Inúmeras vezes. E assim como essa pessoa em questão, sempre usei do alívio cômico pra expressar esse sentimento pesado de sentir-se um zero à esquerda.

O humor causa a impressão de suavizar até as piores coisas. Eu já suavizei muitas situações e sentimentos usando do alivio cômico, principalmente quando estou nervosa. Uma risada quebra o gelo e é melhor rir de uma piada que você fez ao seu respeito do que um terceiro te esculachar, todo mundo rir e você fica lá, se sentindo um lixo. Quando eu fazia uma piada de mim mesma, tinha a falsa impressão que seria aceita. Mas varrer a baixa autoestima debaixo do tapete, fazer das coisas que você está sentindo uma piada e tornar isso um costume, foi uma das piores coisas já fiz. Mesmo quando eu estava falando sério, de verdade, sem fazer a engraçadona, as pessoas não acreditavam em mim. Ter a sua opinião desmerecida, sua voz silenciada e seus sentimentos banalizados porque durante anos da sua vida você fazia piada das suas dores e da sua tristeza, é horrível. E foi assim que parei de usar o alívio cômico para deixar os OUTROS CONFORTÁVEIS quando estava falando sério. Os resultados não foram imediatos, afinal, comecei a refletir sobre esse comportamento depois de anos, mas é bom ser levada a sério. Tem gente que ainda não me entende, que acha que sou burra em assuntos um pouco mais sérios, mas estou batendo o meu pé. Fecho a cara. Agora eu me levo a sério. Não sou uma piada, quero que levem minhas considerações a respeito e que não me tratem feito criança.

Infelizmente não tem pílula mágica pra olhar paro espelho e sentir-se melhor com as coisas que te incomodam há anos. Passei a vida toda sendo desacreditada e desacreditando de mim mesma. Perdi muito tempo, mas agora estou me entendendo cada dia melhor. Não canso de dizer isso aqui. E o primeiro passo fundamental foi parar de me desacreditar, começando pelas piadinhas. Chega de alívio cômico para coisas sérias. Acabou.

Eu gostaria muito que alguém lá no passado, nos meus 20-23 anos, tivesse falado que eu não era um lixo, que era importante, amada, bonita. E teve até gente que falou e tentou alguma coisa, mas simplesmente achava eu NÃO VALIA A PENA. Não acreditava em nada do que meus amigos diziam ou qualquer elogio sobre minhas qualidades. Sempre dei mais atenção para o reforço negativo da sociedade, das revistas femininas, das propagandas exaltando uma beleza que eu não poderia fazer parte, “você é bonita de rosto”. Tornei-me invisível pra mim mesma. Pior escolha. A maturidade, aos poucos, foi tirando esse véu espesso e apagando coisas que eu tinha escrito em pedra aos vinte e poucos anos. Eu me sinto péssima algumas vezes sim, tem dias ruins sim, mas eu sei que não sou um lixo. Ninguém aqui é.

Nada do que eu respondesse aquele snap iria convencer essa amiga que ela está errada a respeito de si mesma. Nada do que eu fale aqui vai fazer alguma diferença se vocês não acreditarem de verdade em seu potencial, em sua beleza e características específicas, em sua individualidade. As coisas não são de uma hora para outra, mas sempre estarei aqui falando que valemos a pena sim. E que um dia ser a diferentona do grupo, tida como desligada ou nerd, gorda desleixada ou magrela, ingênua, feminista demais ou qualquer rótulo que as pessoas tendem a nos colocar, não significará nada. Você sabe quem é, o seu valor e a que veio. E o resto nada mais importa. 



*O título do post de hoje é um trecho dessa música maravilhosa da Carole King. 


11 de março de 2016

Narciza Adelina da Rocha

O que acontece com uma mulher quando lhe é atribuída a vida toda a característica de FORTE? Adelina é uma mulher FORTE. Adelina é uma mulher GUERREIRA. Adelina vai superar rápido porque ela é MUITO FORTE. Adelina não precisa de ajuda porque ela é FORTE. Não é que não precise de ajuda ou de um abraço amigo. O que aconteceu é que desde pequena teve que decidir tudo sozinha, sem ajuda de pai ou colo de mãe.

Quando Adelina tinha 8 anos teve que sair de casa e do convívio de irmãos e pais para morar na casa da comadre de sua mãe. Nesta casa estranha e sem sorriso amigo, começou a trabalhar como gente grande, apesar de sua idade. Ajudava na mercearia e com os afazeres domésticos. Tinha o que comer e onde dormir, mas em compensação tinha que ouvir essas pessoas falarem absurdos sobre sua família e sobre ela.

“Adelina, se você fosse minha empregada já teria te colocado pra fora porque você não faz nada direito”.

“Você pensa que vai ser alguma coisa na vida? Você vai ser igual a sua mãe, uma lavadeira cheia de filhos”.

“Adelina, você vai passar a vida toda usando roupa usada, porque é isso que você merece”.

E assim foram os quatro anos mais longos de sua vida. Colocava a mesa e ajudava preparar a comida que nunca podia comer. Guardava brinquedos alheios que nunca podia brincar. O que fazia essa menina levantar todos os dias, é que um dia provaria que todos estavam errados a seu respeito e de sua família. Com 12 anos, escutando os gritos que era ingrata e mal educada, arrumou suas malas e conseguiu um emprego remunerado de empregada doméstica.

Dona Amélia era uma boa mulher e a tratava como filha. Lá ela não passava vontade de nada, ganhava ovos de páscoa e pela primeira vez comemorou o Natal. A mesa posta com louça de porcelana, todo mundo com a sua melhor roupa, as risadas e presentes. Estava maravilhada, mas, ao mesmo tempo, aquela não era sua família e nem sua casa de verdade. Havia muito a ser feito, precisava trabalhar mais ainda. Queria ter um lar de verdade.

Com 18 anos virou professora de datilografia, mesmo não sabendo datilografar direito. Os dedos por diversas vezes escapavam dentro das teclas da máquina de escrever, mas não iria desistir tão fácil assim. A vida foi tomando seu rumo, ficou noiva de Mauro, deixou a datilografia e agora trabalhava num escritório contábil.

Adelina aprendia rápido e de emprego em emprego, evoluía mais e mais. Agora tinha dinheiro para comprar roupas boas pra ela, ajudava sua mãe com as contas da casa, comprou um carro. Mas ela queria mais! Resolveu voltar a estudar, mas seu noivo se opôs. “Mulher não precisa estudar, tá bom o jeito que está”. Naquela época desmanchar um noivado de 5 anos era burrice, um ultraje! Adelina optou pela fama de mal amada. Era melhor ficar pra titia do que não estudar. Matriculou-se no supletivo para cursar o ginásio. Fez o colegial. Prestou todos os vestibulares que conseguiu. Entrou para faculdade de Ciências Contábeis na FMU. As portas em sua carreia abriram-se mais com a faculdade. Adelina era só trabalho e estudo. Estudo e trabalho. Se queria sair do aluguel, aquilo era só o começo.

Entre uma aula e outra na faculdade, acabou conhecendo Roque e as borboletas no estomago voltaram. Se antes sua rotina era preto & branco, trabalho e estudo, Roque trouxe-lhe cores. Conheceu o que a maioria dos jovens faziam naquela época: se divertiam. Ela conheceu restaurantes novos, saíam para dançar e o sorriso era mais solto. Começaram a namorar e Adelina logo pediu Roque em casamento. Juntos, comparam uma casa e o pontapé para ter um lar foi dado.

Agora Adelina tinha o registro de INDUSTRIÁRIA na carteira. Trabalhava em um ambiente 100% masculino. Tinha que ser dura no meio de todos aqueles homens que duvidavam de sua capacidade por usar saia e salto 15. Foi galgando sua carreira na indústria, depois conseguiu um cargo alto e chefiava o departamento de contabilidade de uma grande empresa.

Ficou grávida de Camila, sua primeira filha e não conseguia mais conciliar a carreira, com casamento, estudo e agora mãe. Deixou a faculdade com a promessa que um dia voltaria. A carreira de Roque começou a despontar também e, com isso, ele viajava bastante. Adelina teve que enfrentar situações difíceis, sozinha e com bebê de colo. Mas era forte, uma mulher que aguenta tudo.

Sobrecarregada com a rotina, sofreu uma aborto espontâneo em casa, sem marido pra ajudar, sem amigos para ligar. Era só o sangue escorrendo pelas suas pernas e o desespero de, pela primeira vez na vida, não saber o que fazer.Logo depois engravidou de Guilherme, que nasceu forte e robusto. A família estava completa e sentia-se feliz de verdade. Roque vez ou outra encontrava instabilidade na carreira e Adelina sempre foi o porto seguro da família.

Criar dois filhos demandava muito tempo assim como seu cargo de diretora contábil. Abdicou de sua carreira de sucesso para dar atenção completa para os filhos, coisa que não tivera quando pequena. Adelina quis dar aos filhos aquilo que não tivera quando pequena: atenção e proteção.

Com o tempo, o dinheiro do marido mostrou-se pouco para o sustento da casa e estudo dos filhos. Começou a fazer artesanato. Sua mãe apoiou a causa e lhe deu uma máquina de costurar. Durante anos Adelina ajudou a sustentar a casa com seus bordados, crochê e pinturas. O dinheiro era pouco, toda ajuda no orçamento da casa era excelente.

As crianças tornaram-se adolescentes e Adelina voltou para contabilidade. Os números sempre foram seu forte. A matemática é exata e fácil, quando as relações humanas lhe pareciam complicadas demais. A fama de durona sempre lhe acompanhou como uma sombra. Não escolheu ser assim, mas esse era seu mecanismo de defesa. Teve que erguer a cabeça muitas vezes e engolir o choro quando seu irmão mais velho lhe surrava no meio da rua pelo simples fato de ser mulher. Teve que construir um muro quando era empregada doméstica e patrões achavam que poderiam conseguir algo além.

Esse muro só ficou maior quando o câncer de mama chegou. “Mas você vai conseguir, Adelina. Você é forte”, as pessoas diziam. Será que conseguiria? Toda vez que a enfermeira custava achar a sua veia, toda vez que ia trabalhar e o gosto amargo da quimioterapia subia pela boca, quando o enjoo e vômito não cessavam, ela se perguntava se conseguiria. Foi quando Roque abruptamente morreu de pneumonia. Adelina não teve tempo para ficar de luto enquanto lutava contra o câncer.

O luto, solidão e a falta das cores de Roque, lhe assolaram muito tempo depois. Dá mesmo para continuar vivendo sem seu companheiro, sem seu alívio cômico, uma pessoa que via Adelina não como uma rocha, mas como uma mulher que precisa de carinho e atenção.


Mais uma vez Adelina teve que colocar-se em prova. Desta vez não para os outros, mas para si mesmo. Principalmente para ela! Era sua vez agora. E depois de tanto trabalhar e fazer-se de forte quando realmente tudo está quebrado, agora está aprendendo que é normal chorar quando está triste. Que pode gargalhar alto quando se está feliz. Que não há nada de errado em ser uma mulher decidida e que tem objetivos. Dá pra continuar sim, a vida não para. Nem Adelina. 


Narciza Adelina vulgo #donanarciza @ 2016.

10 de março de 2016

Narcisa Maria da Rocha

Quando Narcisa anunciou para os filhos que casaria de novo, ela não esperava a reação em cadeia de despedaçar sua família novamente, como já tinha acontecido anos atrás. Benedito, seu primeiro marido, pai de seus filhos, tinha morrido há seis anos. Viveu o luto e tingiu todas as suas roupas de preto. Comeu o pão que o diabo tinha amassado, mas sobrevivera. E agora isso. Em sua cabeça, não havia nada demais uma mulher de 44 anos refazer a sua vida. Jonas era decente, alfaiate. Bebia de vez em quando, mas qual homem não gostava da cachaça?

Narcisa já passara por muito e sempre fez as coisas conforme mandava o figurino. Sempre tinha alguém mandando como tinha que fazer, como deveria se comportar. Casou-se com quem seu pai escolheu aos 18 anos. Pariu e criou seus sete filhos: Dionísio, Alzira, Doralice, Irani, Narciza Adelina, Maria Aparecida e Wilson. E só ela sabe como foi criar todas essas crianças. Benedito foi um bom homem e companheiro. Mas a bebida sempre foi um problema em sua vida e o levara cedo demais. 

Viúva e com crianças para sustentar, lavava roupa para fora, logo ali na beira do rio Tietê. Passava roupa também. Quando a falta de dinheiro apertou mais ainda, teve que abrir mão da convivência de sua filha Adelina, que passou a morar na casa de sua comadre. Era isso ou passar fome. Mas Deus era bom e não ousava reclamar das coisas que Ele colocava em seu caminho. Era grata. Tinha força nas pernas e nos braços e não tinha medo do trabalho.

Trabalhou de empregada doméstica, uma casa ali, um escritório acolá. Viu seus filhos mais velhos se casarem e formarem as suas famílias. Cada um seguia a sua vida como bem entendia. E agora, depois de tantas adversidades, depois de tanto café com farinha, não podia seguir sua vida também?

Depois de tanto tempo, seria bom alguém para lhe fazer companhia e Jonas lhe prometera muitas coisas, até o luxo de uma geladeira que até agora nunca tivera. Por que não? Juntou-se com Jonas em 1972 e agora era apenas ela e seu filho caçula, Wilson. Mas seu coração grande de mãe sabia que um dia todos sentariam novamente à mesa num almoço de domingo.

Narcisa tinha seus sonhos e suas vaidades. Queria viver sem aluguel, queria escrever. Não suportava a ideia de não saber ler. Seu pai sempre achou inútil a educação de suas filhas. Ela aprendeu com a mãe como cuidar de uma casa, criar galinha e porco, deixar a roupa branquíssima, como manusear o ferro em brasa e fazer o feijão render mais. Mas agora podia finalmente fazer as coisas de seu jeito. Com certa dificuldade e persistência infinita, aprendeu a escrever seu nome. Narcisa Maria da Rocha. Nunca mais mancharia seu dedão de preto. Tinha um nome, uma assinatura e seu orgulho restaurado.

A vida foi seguindo seu curso, algumas rugas cobrindo suas mãos, as pernas arqueavam-se gradativamente devido osteoporose, o coração não dava mais conta do trabalho puxado de doméstica e aposentou-se. Adelina bateu em sua porta com a ideia de reunir a família novamente. E assim foi. Agora comemoravam Natal e Ano Novo, os aniversários, a mesa de domingo era barulhenta, os netos enchiam a casa de risadas e gritos de crianças. De manhã cedo, Narcisa gostava de colocar o rádio no último volume, acordando a casa toda. Adelina, Maria Aparecida e Wilson precisavam acordar cedo para trabalhar e fazer a vida como ela havia feito. Tinha um orgulho danado de suas crias, mas não amolecia com ninguém não.

A casa era pequena, mas Narcisa era feliz. Escutava música, assistia novela em sua televisão em cores, passava batom vermelho quando ia receber sua aposentadoria. Seus filhos estavam todos casados e agora acompanhava o crescimento dos netos.

E quando Narcisa achou que já tinha conseguido tudo o que queria, os 76 anos de idade, conseguiu comprar o seu apartamento. Depois de morar em tantas casas, umas até com parede feita de barro, agora tinha endereço fixo.

A osteoporose por fim arqueou de vez a suas pernas e passou a andar de cadeira de rodas. Mesmo assim, absolutamente nada lhe tirava o sorriso do rosto. Ela tinha vida em suas veias, ânimo não lhe faltava, tinha muito que ver, sempre tem!


Narcisa queria ter ido até os 100 anos, mas aos 82 atendeu o chamado de Deus e fechou os olhos pela última vez. Em sua bolsa ela levava o seu pente inseparável, o sorriso dos netos e bisnetos, a tranquilidade dos filhos criados, a certeza que tinha aproveitado e vivido bem a sua vida. Não tinha nada do que reclamar. Fora feliz


Narcisa (sentada) e suas filhas: Maria Aparecida, Narciza Adelina e Alzira @ Ano Novo em 2000.

Eu e minha avó Narcisa @ 1996. 

9 de março de 2016

Antonia

Quando comecei a estudar no Rui Bloem, eu tinha dez anos e tudo era uma novidade, estava ansiosa. Quinta série, escola pública, vários professores e novas matérias. Foi um choque de realidade tremendo porque eu estava indo pra escola para estudar e muitos das crianças ali frequentavam as aulas para comer.  Eu tinha lápis de cor, canetinha, levava lanche de casa numa lancheira com a estampa de princesa da Disney. Eu sempre fui muito ansiosa, na primeira semana de aula eu sofri um pequeno acidente doméstico com um copo de leite fervendo. Derrubei em mim mesma, ganhei uma queimadura de terceiro grau na barriga e fiquei 15 dias em casa. Quando finalmente fui pra escola, todo mundo já estava entrosado. As meninas me tinham como patricinha e riquinha e a única pessoa que conhecia ali naquela sala, fazia questão de me ignorar porque eu era gordinha.

Eu realmente não sei como teria sobrevivido aquele 1997 no Rui Bloem sem a Antônia* por perto. Eu acho que ela olhou pra minha cara perdida ali na sala de aula e pensou “o que essa menina tá fazendo aqui?”. Ela cuidou de mim tipo irmã mais velha. Apesar de estarmos na mesma série, ela já tinha 13 anos.


Fachada atual do Rui Bloem

Antonia me ensinou com o seu jeito bruto a me defender sozinha naquele cenário novo. Criar coragem e estufar o tempo para revidar quando as meninas me chamavam de Girassol (por causa do meu cabelo armado). Me mostrou como funcionavam as coisas numa escola pública abandonada no meio da favela do Jardim St. Elias

“Ô menina besta, quando eu falo pra cê entrar na fila (da merenda) não é pra cê falar que não. Entra aí, porque como o seu lanche e o meu, tá entendendo?”.

“Girassol, fica vacilando com essas canetinhas. Aqui não é EMEI não, deixa isso na sua casa”.

“Não é todo mundo que tem mamãe e papai pra ficar resolvendo as treta da escola”.

“Aqui ninguém é rico que nem você que ganha presente de aniversário”.

“Camila, cê não pode ficar encarando essas meninas aí não, ô”.

“Você não gosta do Leve Leite dá pra quem precisa”.

“Girassol, você é muito boba. Fica esperta”.

Antonia me ensinou a sobreviver e entender as diferenças sociais do jeito dela, me dando bronca, me beliscando, me cutucando por debaixo da carteira. Ensinou-me a ficar quieta e não reclamar dos meus problemas de menina de dez anos com casa própria, vídeo game e que já conhecia o mar. Eu ajudava Antonia com as coisas da escola (que nem eram tantas assim), ela estava extremamente preocupada porque “quinta série repetia”.

Antonia queria ser cabeleireira e ser dona de um salão todinho branco. Contava os dias para o pagamento de sua mãe cair pra poder comprar Alisabel e depois passar Henê no cabelo. E assim foi a quinta série.

Quando voltei das férias para o novo ano letivo, o nome de Antonia constava na lista, mas ela não estava presente. Depois de um tempo fui procurá-la em sua casa, lá no meio da favela. Uma mulher velha atendeu e disse que Antonia não estava e bateu a porta na minha cara.

Três meses depois, fui vender a minha lata de Leve Leite (coisa que Antonia desaprovava) e me encontrei com ela por acaso, na entrada da favela. Antonia tentou esconder, mas deu pra ver seu barrigão. Tava grávida. “É, tô de barriga, Girassol”. Aquilo foi um choque tremendo. Perguntei quando voltaria pra escola (“é importante ir pra escola, você já faltou um monte!”) e só respondeu “quando der”.

A professora continuou chamar o nome dela até o fim do primeiro semestre. De vez em quando alguém respondia “TÁ GRÁVIDA”. Antonia começou a trabalhar num salão perto ali da escola e nunca mais voltou para escola. Falamos-nos mais duas vezes, quando me pediu pra que eu parasse de procurá-la na favela, porque era perigoso e que ela tinha que seguir a vida e eu a minha.
Antonia engravidou de novo no ano seguinte. Fiquei sabendo disso porque um dia, eu estava ensaiando com a banda marcial em frente da escola e a vi passando, com barrigão e a outra criança no colo.

Em 2004, quando as minhas duas avós morreram, quase uma morte seguida da outra, eu tava achando o mundo um lixo. Estava voltando do cursinho sábado à tarde e o ônibus passou em frente do salão que ela trabalhava. Já fazia alguns anos e por que não dar uma passada ali? Entrei no salão (que hoje nem existe mais) e perguntei por ela.

Antonia morreu fazendo um aborto de sua terceira gravidez, aos 21 anos de idade. Não tinha dinheiro para manter mais um filho, não aguentava mais apagar fogo com gasolina e optou por não colocar outra criança no mundo, que não teria como sustentar sozinha. E assim, dessa forma abrupta, morreu de hemorragia no quartinho de favela deixando duas crianças sem mãe.

E o pai? Ninguém me respondeu.

Daí você me fala que ela tinha opções, que ela poderia se prevenir, que existe pílula e camisinha. Nem eu e nem você sabe em que cenário essas crianças foram geradas. Não me cabe julgar. Existia um namorado? Eu nunca vi essa mulher com namorado ou falando de homem pra mim em nossas conversas. Antonia não tinha pai, mas eu lembro que ela tinha uma espécie de padastro. Será que o filho era dele? Será que ela foi abusada? O que realmente aconteceu?  Será que foi apenas um caso de falta de informação para essa mulher negra, da periferia de São Paulo, que parou de estudar aos treze anos de idade?

Foi “descuido” de quem? De Antonia, do homem que a engravidou, do Estado? Quando falamos de aborto temos a tendência de individualizar essa questão. “Ah, eu não faria”, “minha religião diz que...”. Pouco me importa o que a sua ou a minha religião diz, qual é sua escolha ou não. Eu quero que exista a possibilidade de TODAS as mulheres abortarem em um AMBIENTE SEGURO. As mulheres JÁ ABORTAM. Mas morre é quem não tem dinheiro, quem cai na mão de uma pessoa que não pode exercer a Medicina.

A história da Antonia é assim, curta e rápida. Poderia ter sido muita coisa, mas não deu tempo.



RJ – Véspera do Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna, feministas em ato na Praça XV, defendem a descriminalização do aborto e destaca o alto índice de mortes em abortos clandestinos. Foto de Fernando Frazão/Agência Brasil.

*troquei o verdadeiro nome dela.

8 de março de 2016

Marina dos Santos

Quando Marina nasceu no berço de ferro de Mina Gerais, sua mãe resolveu homenagear o distante mar que nunca chegou a ver. Marina não teve muito tempo pra infância, mas naquela época, ninguém tinha. Desde cedo ia buscar água na beira do rio. Era uma caminhada longa de pés descalços pela estrada de terra batida.

Sua mãe era um quilombola bruta, tinha cicatrizes por todo o corpo e quase não falava. Passava os dias cozinhando doce nas panelas de ferro. Marina aprendeu com a mãe o jeito de lidar com a brasa do fogão, o ponto do doce de abóbora, o segredo de um sequilho sequinho e de uma pururuca crocante. Oferecia de porta em porta os quitutes da mãe. Logo cedo caiu na estrada, foi pra São Paulo em um acordo que seu pai fizera com um compadre. A vida na cidade grande seria melhor, prometera seu pai.

Marina sentia a falta do ar fresco das serras e do silêncio de sua mãe. Às vezes antes de dormir ela forçava os olhos para lembrar os traços largos do nariz de sua mãe, o cheiro de fumo do pai, a casa cheirando bolo de fubá. Tudo isso ficou para trás. Nunca mais viu seus pais.

Foi acolhida pela família do compadre de seu pai e agora ao invés de buscar água no riacho, cuidava de uma casa com cinco cômodos, um bebê que não parava de chorar, um patrão que pousava a mão leve em suas costas enquanto ela cozinhava a comida pra família. Achou que estava doente quando veio a menarca. “Neguinha burra, agora você virou mulher”. A cidade parecia que a engolia. Sentia falta das montanhas mas tinha que sobreviver ao concreto.

Conheceu Juvenal e nele a esperança de uma vida nova, de novo. Casaram-se e da casa grande, foram morar em dois cômodos em Santo Amaro, um lugar tão longe que ela achava que ali não era mais São Paulo. Muito matagal e lama, sem montanhas ou muitas casas. Marina estava sem referência novamente.
Agora ela ia buscar água no poço. A casa não era sua ainda, vivia no quintal sogros, mas aquele seria um novo recomeço.

Quando seu primeiro filho nasceu, Marina achou que fosse se despedaçar em dor. A dor em seu ventre a enlouquecia. A falta de ar em seus pulmões, aquela criança que não nascia. Mais um empurrão, mais uma tentativa. O bebê nasceu com 4,5kg em uma tarde fresca de março depois de 20 horas de trabalho de parto. Era uma criança forte e robusta. Juvenal homenageou o próprio pai colocando o nome de Roque em seu primogênito. Roque Teixeira Neto, assim ficou. Reinaldo veio logo depois. Um parto mais tranquilo, uma Marina do minério de ferro bem mais forte.

A vida com as crianças era um pouco mais doce e sabia que era uma boa mãe. Os meninos brincavam na rua de casa. Criava porco e galinha. Plantou alface, couve, abobrinha, pimentão, tomate, batata, cenoura. Tudo parecia entrar nos eixos foi então que Juvenal enlouqueceu.

Marina não sabia se foi a cachaça que deixou seu homem louco ou se foi a loucura que o levou para cana. Reinaldo chorava muito com os ataques de fúria do pai. Juvenal quebrava o pouco que eles possuíam, gritava e chorava muito. Marina rezava quando o marido saia de casa, pedia para Deus e Nossa Senhora Aparecida livrar ela e os filhos de todo mal. Juvenal agora arrancava a pele da boca, do nariz, já não conseguia mais andar. Foi internado no hospital Psiquiátrico do Juqueri e só saiu de lá morto. Ninguém soube explicar pra ela o que aconteceu. Ninguém tinha respostas para suas perguntas.

Viúva e com duas bocas pra alimentar, Marina se perguntava se a morte do marido fora culpa de suas orações. Os joelhos cansados de tanto rezar por um livramento. Que livramento foi esse? Sentia-se mais perdida do que nunca. Roque já era crescido, saía por Santo Amaro catando latinhas e vidros para revender. Reinaldo nunca mais foi o mesmo depois da loucura do pai. Quase não falava e às vezes Marina batia no filho só pra ouvir o som do seu choro e saber que seu caçula estava vivo.

Foi através de uma prima distante que Marina conseguiu um emprego na cidade novamente. Jardim São Bento seria sua morada. Colocou as melhores roupas nos filhos e foi embora sem olhar para trás.

Marina conquistou aquela família pela barriga. Agora era cozinheira. Tinha um uniforme azul e branco, o dinheiro era certo todo mês. Colocou seus filhos na escola. Roque e Reinaldo ganharam peso. Sentia falta de sua horta, mas agora tinha cama para os filhos e ficava feliz em saber que eles aprenderiam as letras e seriam melhores do que ela.

Mas ela queria mais, muito mais. Marina sonhava alto agora. Queria uma casa pra ela, onde ela fosse a patroa. Teve paz em ver os filhos crescerem, se tornaram homens e agora ninguém ia dormir com a barriga doendo de fome. Roque foi um adolescente galanteador, era terrível, um menino esperto, malicioso e cheio de vida. Reinaldo ia bem nos estudos, era apegado aos livros, um menino calado e amoroso. O dia que seu filho mais velho entrou na faculdade, Marina chorou de alegria em seu quartinho pequeno de empregada.
Roque logo foi pra longe do ninho e casou-se. Teve filhos, agora era Marina era avó. Reinaldo era seu porto seguro, sua constante, seu verdadeiro companheiro. Trabalhava feito burro de carga, assim como ela. Uma vez Reinaldo desenhou na contra capa de um livro uma casa, apontou com o dedo e disse “essa vai ser a nossa casa, mãe”. Fizeram planos, juntaram dinheiro. Despediu-se de Jd. São Bento e dos casarões do bairro, agora sua vida e seu pedacinho de chão era em Colinas do Anhanguera.

Com as próprias mãos, Marina construiu a sua casa. Não era grande e luxuosa como as casas do antigo bairro, mas era dela. Construiu ali a sua morada. Descansou. Mas nem tanto. Voltou a entrar em contato com a terra e plantou novamente uma horta, agora maior e melhor. Mas a vida foi ficando cara, as costas doíam, gosto amargo na boca, Reinaldo sem emprego e as contas sempre chegavam. Marina teve que reinventar-se novamente. Tinha duas mãos firmes, fazia doces e sorvetes para vender. Adotou um vira-lata chamado Cheiroso que foi seu companheiro fiel durante muitos anos. Fazia longas caminhadas com Cheiroso até quando a velhice lhe permitiu. Colhia ervas medicinais pelas colinas de seu bairro, se lembrava do tempo distante em Minas Gerais. A velhice tinha mesmo chegado, as pernas finas pesavam uma tonelada, a vista nublada, mas a terra sempre foi uma boa distração. Se você cuidar bem nunca vai faltar.

Marina sempre teve muito medo da morte, do juízo final. Mas com passar dos anos entendeu que ali, que aquela vida ali era seu verdadeiro juízo. Ela se perguntava se a falta de ar nos pulmões era alguma indicação de que as coisas estavam se findando.

Quando Marina deu seu último suspiro, ela sentiu o cheiro de terra molhada das montanhas gerais e do açúcar queimando da panela de ferro de sua mãe. Estava em casa novamente. 

Marina dos Santos, minha vó paterna. Morreu em novembro de 2004.  
 Observe seu uniforme de trabalho, acho que meus pais foram visita-la
 num sábado e fizeram essa foto @ Setembro de 1986


7 de março de 2016

Odonir Oliveira

Eu tinha dez anos quando meus pais ficaram sem dinheiro para manter eu e meu irmão na escola particular e fomos estudar na prefeitura. O ano era 1997 e as coisas na EMEF Rui Bloem eram bem diferentes com o que estava acostumada. Pra começar, fiquei durante um tempo sem professora de português. Toda vez que chegava mais cedo em casa por causa das constantes aulas vagas, minha mãe ficava preocupada. Não ter aula de português, uma disciplina BÁSICA e FUNDAMENTAL, como ficaria o meu aprendizado? Uma vez minha mãe foi reclamar com a diretora da escola e escutou “Mãe, eu estou preocupada com as alunas de 13 anos que estão grávidas no momento. Desculpa, tenho coisas mais importantes pra me preocupar”.

Na sexta série conseguimos uma professora fixa, mas não me lembro do nome dela. Os boatos nos corredores do Rui Bloem era que o pessoal da minha sala tinha sorte, porque a professora que ensinava a outra metade das classes da sexta série era uma bruxa. O nome da professora era Odonir. Minha melhor amiga na época tinha aula com essa professora temida e reclamava horrores. Minha amiga tinha lição de casa, a professora passava projetos, lia poesia. Eu não estava aprendendo nada disso.

Lembro que a professora Odonir iniciou um projeto de leitura que acabou envolvendo todas as sextas séries. Muitos dos meus colegas de classe estavam achando um absurdo “ela nem era a nossa professora” e depois teve mais um “boicote” porque o livro era “caro demais”. No final todo mundo leu o livro da Isabel Vieira que se chamava “Quem sequestrou Marta Jane?”. Eu lembro que no final os livros saíram a preço de custo e a professora Odonir trouxe a escritora na escola pra conversar com a gente sobre o livro. Numa escola de prefeitura em 1998, sem apoio nenhum, trazer uma escritora no Rui Bloem era um grande feito.

Naquela época foi plantada a sementinha da leitura em mim. Eu já gostava de ler e acabei me interessando mais. Acabei pedindo para a minha mãe comprar outros livros da Isabel Vieira. Li todos os livros disponíveis dessa autora na época e comecei a frequentar a biblioteca da escola. No ano seguinte (se não estou enganada) a professora Odonir acabou pegando todas as turmas de sétima série e eu tive o prazer de ser aluna dela. 

Antes de continuar com essa história, preciso pintar um pequeno cenário para vocês. Quando comecei a estudar no Rui Bloem, era uma escola bem desacreditada. Ninguém usava uniforme, não havia muitos professores, tinha algumas gangues dentro da escola. Aos poucos as coisas foram melhorando para nós alunos (não sei quanto aos professores). Mesmo assim, ainda tinha muita briga, uma série de alunos bem problemáticos. A nossa professora de matemática simplesmente não conseguia dar aula direito. Ela tinha um filho com necessidades especiais e alguns alunos caçoavam por disso. Ninguém respeitava a prof. Lóide. Os meninos, dia sim e dia não, furavam TODOS os pneus do fusquinha amarelo dela. Ela nem podia mais estacionar o carro em frente da escola. A maioria dos professores tinha receio de certos alunos. Vi muita gente mandar o professor calar a boca. E eles se calavam diversas vezes. Uma vez escutei que tinha um cara lá (que por sinal estava na minha sala) que ia armado pra escola, que era chefe de boca. Se isso era verdade ou não, eu não sei. Mas havia um pessoal que botava medo ali.

A professora Odonir sempre foi muito enérgica. Ela fazia nos fazia pensar, refletir, realmente fazia valer aquele nosso tempo na escola. Agora no Rui Bloem tinha até festival de poesia (que eu participei de livre e espontânea vontade). Ela nos fez pesquisar sobre os poetas e escritores de Minas Gerais e São Paulo numa época que não existia Google. Toda semana eu estava na Biblioteca de Pirituba pesquisando sobre algum projeto que envolvia as aulas de português e literatura. Ela nos fez preparar dossiês, recitava poesias, lembro até que organizou um debate entre os alunos na época das eleições para a prefeitura de São Paulo. Cada grupo defendia um candidato e, daquele jeitinho, a professor Odonir nos ensinava argumentação. Na oitava série escrevemos inúmeras dissertações porque tínhamos que estar preparados antecipadamente para o vestibular. Ela não tinha medo de aluno, impunha respeito (levei bronca diversas vezes porque sempre falei mais que a boca) quem fazia bagunça e não respeitava a autoridade dela em classe, era colocado pra fora.

Chegou o dia em que fui pra escola e estávamos de aula vaga de português. Da professora Odonir. Como assim? Ela NUNCA faltava! E se tinha que se ausentar, deixava atividade. Mais tarde circulou a notícia que a professora tinha sido ameaçada de morte por um dos alunos. Não sei se ela ficou ausente uma semana ou quinze dias, pra mim foi uma eternidade. Eu estava chateada e com um pouco de medo. Ameaça de morte é coisa séria.

Então depois de um tempo, a professora voltou pra escola. Voltou pra nossa turma. Lembro que pisou dentro da nossa sala e um engraçadinho cantou baixinho a marcha fúnebre. Mesmo assim, ela não se curvou. Explicou a situação com clareza para classe e disse que iria continuar exercendo a sua profissão e que não tinha medo de bandido disfarçado de aluno. E que não iria nos abandonar e ficaria no Rui Bloem até o final das aulas, contrariando as recomendações da polícia e de sua família.

Quando eu cheguei ao primeiro colegial (agora em escola particular através de uma bolsa de estudos) eu realmente entendi o que a professora fez por todos os seus alunos ali na prefeitura. Entrei no ensino médio com uma imensa bagagem literária e gramatical. Ela nos preparou pra vida do vestibular, aguçou a nossa curiosidade, formou pesquisadores, despertou o interesse pela leitura. Não sei se todos os meus colegas na época aproveitaram tanto quanto eu aproveitei. Mas a oportunidade foi dada. Ela realmente tinha vontade de nos ensinar, de fazer a gente aprender. Professora Odonir se importava de verdade.

Essa semana é a semana do Dia Internacional de Luta das Mulheres. Não é uma data comemorativa, é uma data de luta. Quero começar a semana contanto pra vocês essa história de perseverança da professora Odonir. Toda vez que penso nesses acontecimentos, agora com os olhos da maturidade, eu me emociono. É preciso muita força e resiliência de ser professora, de levantar todos os dias e saber que pode não voltar pra casa e mesmo assim ir. Munida de cadernos e livros, enfrentar uma classe com quarenta pré-adolescentes eufóricos e QUERER estar . Resistir. Ensinar. Lutar todos os dias. Mas lutar de verdadeEste deve ser apenas uma nota de rodapé na história desta mulher maravilhosa, que levou a sério sua profissão de ensinar e formar pessoas. Com ela não tinha aula vaga, não tinha corpo mole. Desde cedo nos preparando para a vida fora das paredes da escola.

Recentemente o Facebook me trouxe notícias da professora-poetisa. Atualmente ela publica suas poesias em um blog Mãos que Sentem e mantém e organiza o “Clubinho da Leitura de Barbacena” voluntariamente. É um trabalho inspirador e transcendente. Imagino que introduzir o gosto pela leitura de uma forma tão lúdica nessas crianças deva ser uma experiência mágica. Ler é mágico. A Professora Odonir é a melhor Mágica que eu conheço. 

Esse são alguns livros li na época do ginásio.
A maioria eu acabei doando anos atrás para a biblioteca do Rui Bloem.